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Adilson Batista: ‘O Cruzeiro vai pagar as dívidas e o Atlético ainda não terá conseguido um título de expressão’

Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro

por Nicolas Rodrigues, João Vítor Castanheira e Taynara Barbosa

Adilson Batista não tem a menor pretensão de trabalhar no Atlético-MG um dia. “Nunca. Sou Cruzeiro. Sou Azul. Sou cabuloso”, garante. Em papo exclusivo com o Esporte News Mundo, o treinador avaliou sua última passagem pela Raposa, comentou a situação política e financeira do clube, e não mediu palavras ao criticar a imprensa mineira.

Adilson iniciou seu segundo trabalho como treinador no clube celeste em novembro do ano passado, a três rodadas do fim do Campeonato Brasileiro. Ele chegou à Toca da Raposa com o time já na zona de rebaixamento – e não conseguiu livrá-lo da queda.

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O técnico de 52 anos, desta forma, ficou com a missão de comandar a Raposa em um ano de reabilitação, mas depois de três derrotas seguidas – uma delas para rival Atlético-MG e outra em casa por 2 a 0 para o CRB, no primeiro jogo da terceira fase da Copa do Brasil – foi demitido antes da paralisação do futebol brasileiro, em meados de março.

 —  Eu fiquei triste, porque fazia parte de um projeto de você reestruturar, de todas as dificuldades, vocês sabem bem como estava o nosso clube passando por momentos difíceis. Teve a queda, teve uma reorganização, muitas mudanças, oportunizando mais de 12 meninos que a gente trouxe da base. Então, achei que eles deveriam ter tido um pouco mais de paciência.

 — Eram grupos gestores, e agora assumiu o doutor Sérgio Rodrigues, que eu desejo sorte, competência ele tem. A gente ficou um pouco triste porque as pessoas não tiveram essa compreensão de entender que o processo era a partir de maio. Você começar a construir um time para conseguir o grande objetivo do ano que é subir e voltar a série A, que é o lugar do Cruzeiro.

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Enquanto esteve em Belo Horizonte, Adilson Batista viveu em pé de guerra com a imprensa de Minas Gerais – para ele, “90% atleticana”. O ex-zagueiro considera-se “fritado” pela mídia local e não esconde o coração azul ao apontar para as conquistas do “outro lado da Lagoa (da Pampulha)”, modo como se refere ao rival alvinegro.

 — Sempre iludiram o outro lado e trabalharam contra o Cruzeiro, a vida inteira. Só que quem chega, quem incomoda, quem ganha, é o Cruzeiro. Então é mais fácil iludir o torcedor do outro lado. Então eu frito, vão fritar, só que eu não vou atender. Determinado órgão de imprensa eu não vou atender. Se vocês pegarem, o Cruzeiro teve uma denúncia pelo Fantástico (da Rede Globo). Esse setorista (não citou nome), que se julga o expert, porque ele não denunciou essa corrupções antes? Ele deveria ter denunciado, faz parte do trabalho dele. Ou seja, é conivente com alguma coisa. Eu senti isso na pele quando trabalhava. Jornalista tem o seu time, e aí coloca o coração. Infelizmente, muitos não viram o título de 1971 lá do outro lado. E depois ficam brigando aí.

 — Façam o exercício. Tirem o Cruzeiro do estado de Minas Gerais para vocês verem. Sobra um título da Copa do Brasil, um do Brasileiro, um da Libertadores. Três.  Só aqui (Paraná), o Coritiba tem um, o Athletico tem um, deixou de ganhar 2004, tem a Copa do Brasil e tem ainda a Sul-Americana. Já igualou. E Bahia tem dois títulos brasileiros, já passou o Atlético-MG. O Cruzeiro é que ganha. O Cruzeiro tem seis Copas do Brasil, quatro Campeonatos Brasileiros, quatro finais de Libertadores. “Ó”, o Cruzeiro vai pagar a dívida e o Atlético-MG não vai ter conseguido um título de expressão ainda  — projeta Adilson.

BATE-BOLA COM ADILSON BATISTA

 Esporte News Mundo: Adilson, depois que o Cruzeiro acabou rebaixado e você permaneceu, imaginou que cairia no logo no Estadual?

Adilson Batista: Não. O Cruzeiro liderou até a quarta rodada, depois foi segundo e terceiro. Perdeu o jogo para a Tombense. Perdeu um clássico, no finalzinho do jogo. Jogou com sete meninos e depois perdeu pro Coimbra, estava em quinto. O Cruzeiro jogou praticamente com juniores, teve jogo com oito, com nove, com sete. A gente precisa analisar, os meninos tem mais dois anos ainda pra jogar, é um time muito novo. Não deve se cobrar. O grande objetivo do Cruzeiro é chegar a série A (do Brasileiro) em dezembro e acabou.

ENM: No ano passado, o que aconteceu Thiago Neves depois do episódio em que ele foi visto em um show no Mineirão em meio a um momento atribulado no Cruzeiro?

AB: O Thiago não foi meu jogador. Cheguei lá e ele teve a discussão com o Zezé e foi embora. Eu não posso falar nada. 

ENM: Você não teve contato com ele, não chegou a falar com ele?

AB: Não tive. Cheguei ele estava no DM, no outro dia teve um discussão com o Zezé e aí foi embora. Não dá pra falar nada.

ENM: Como jogador, você foi campeão da Libertadores e brasileiro pelo Grêmio, venceu duas Supercopas da Libertadores pelo Cruzeiro, teve passagendo vencedora no Júbilo Iwata, do Japão… Onde você se considera mais ídolo?

AB: Eu tenho muito respeito pelo Athletico Paranaense, aqui de Curitiba, que me abriu as portas. Eu tenho muito carinho pelo clube. Eu era jovem, precisei ser vendido pro Cruzeiro em função do dinheiro. Mas a identificação é no Grêmio e no Cruzeiro. Eu também tenho uma boa aceitação, um respeito muito grande e sou convidado a ir Jubilo Iwata, que a gente fez história, ganhamos duas J-League, ganhamos a Supercopa e a Copa da Ásia, fomos vice da J-League. Foram três anos de jogador muito legais, até fui convidado para ser treinador também. Fiquei lá (no Jubilo Iwata) um ano e seis meses. Então, acho que seriam esses dois: Cruzeiro e Grêmio.

ENM: O Cruzeiro acumula dívidas e vive a pior crise de seus 99 anos de história. Você, que viveu recentemente o ambiente do clube, em quanto tempo espera vê-lo sair deste caos?

 AB: É difícil prever. Daqui a pouco entra três ou quatro ou cinco investidores, que façam um aporte, né? O (Luiz Gonzaga) Belluzzo, ex-presidente do Palmeiras, é um financeiro. Ele entrou no futebol e teve um rombo no Palmeiras. Não tem uma mágica, uma ciência. Digamos, o Cruzeiro ganha a série B. No outro ano, o Cruzeiro consegue chegar na Copa do Brasil e ir longe no Brasileiro. Enfim, as coisas vão melhorando. Evidente que tem uma dívida grande, pode ir protelando e pagando aos poucos. O Grêmio também tinha uma dívida enorme e fez um consórcio. O Grêmio está com Arena nova e estruturado. O Flamengo não tinha uma dívida enorme? Com a administração do Eduardo (Bandeira de Mello) deu uma enxugada e hoje está um time forte. Então, se tiver uma administração e eu acredito muito do doutor Sérgio (Rodrigues), e se tiver mais parceiros. Queira Deus que consiga aparecer mais “Pedrinhos” do Supermercado BH, que está ajudando o clube, pro Cruzeiro voltar para o eixo dele. É difícil você cravar se é um ou dois ou três anos. A gente que gosta do clube, quer que de uma sentada e vá compreendendo que daqui a pouco o Cruzeiro se organiza de novo. 

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