Seleção Brasileira

Brasil goleou a Austrália em 2017, mas chega diferente para o amistoso de setembro

Foto: Michal Jarmoluk/Pixabay/Divulgação

Brasil e Austrália se enfrentam duas vezes em setembro, em Townsville e Brisbane, reeditando um confronto que a Seleção domina desde o primeiro encontro, em 1988. No retrospecto direto de Brasil x Austrália, foram onze partidas, com oito vitórias brasileiras, dois empates e um único triunfo australiano. O último capítulo dessa história aconteceu em 2017, em Melbourne, quando o Brasil goleou por 4 a 0, gols marcados por Diego Souza, Thiago Silva e Taison, num duelo que passou para os livros de recorde por outro motivo específico.

Diego Souza abriu o placar aos dez segundos daquela partida, o gol mais rápido já registrado na história da Seleção Brasileira. O time que pisou em campo em Melbourne, no entanto, tem pouca relação com o que vai a campo agora. Passados pouco mais de nove anos, boa parte daquele elenco já não defende mais a Amarelinha, e a Seleção que retorna à Austrália em 2026 carrega uma missão completamente diferente da de simplesmente vencer, é reconstruir a própria identidade depois da eliminação precoce na Copa do Mundo desse ano.

Esse contraste entre domínio histórico e incerteza recente costuma despertar interesse redobrado do mercado de apostas esportivas, já que o retrospecto favorável nem sempre reflete o momento real das equipes. Quem busca os melhores palpites para o Brasil nesta janela de setembro encontra justamente esse dilema, um adversário historicamente inferior, mas um Brasil em pleno processo de transição, sem a maior parte dos nomes que sustentaram o resultado de 2017.

Cinco jogadores do atual elenco australiano (Aziz Behich, Milos Degenek, Mathew Leckie, Jackson Irvine e Ajdin Hrustic) já estavam em campo naquele jogo de 2017, uma continuidade que contrasta diretamente com a reformulação promovida pelo técnico Carlo Ancelotti do lado brasileiro. Enquanto a Austrália manteve boa parte da espinha dorsal ao longo de quase uma década, o Brasil decidiu zerar o time depois da queda para a Noruega nas oitavas de final da Copa de 2026. Esse cenário também move o mercado de apostas esportivas, e casas como a Stake Brasil já classificam o confronto entre os mais buscados do calendário de setembro, muito por conta dessa mistura de tradição histórica e reconstrução recente. 

Um retrospecto de mais de três décadas

O histórico de Brasil x Austrália começou em julho de 1988, no torneio bicentenário disputado em solo australiano, com vitória brasileira por 1 a 0 na fase de grupos e outra, por 2 a 0, na decisão. No mesmo ano, as equipes voltaram a se enfrentar nos Jogos Olímpicos de Seul, com nova vitória do Brasil, desta vez por 3 a 0. Passada mais de uma década, o confronto seguinte veio em 1997, pela Copa das Confederações disputada na Arábia Saudita, com empate sem gols na fase de grupos e goleada brasileira por 6 a 0 na decisão do torneio.

O único resultado favorável à Austrália na história do confronto aconteceu em 2001, também pela Copa das Confederações, na disputa pelo terceiro lugar em Ulsan, na Coreia do Sul. Os Socceroos venceram por 1 a 0 justamente a seleção que viria a ser campeã do Mundial seguinte, em 2002, resultado que até hoje é lembrado no país como um dos maiores feitos da história do futebol australiano contra uma potência sul-americana. Foi o único momento em mais de três décadas de rivalidade em que a Austrália levou a melhor, cenário que reforça o caráter simbólico daquela vitória isolada.

Vale registrar que aquela edição da Copa das Confederações de 2001 também marcou a primeira vez que a Austrália disputava o torneio, então batizado com o nome de Copa Ouro Fifa em algumas coberturas da época. A campanha australiana surpreendeu ao eliminar times tradicionais na fase de grupos antes de parar na semifinal diante da França, futura campeã, o que ajuda a explicar por que aquele terceiro lugar, conquistado justamente sobre o Brasil, ainda hoje é lembrado como um dos resultados mais simbólicos contra seleções sul-americanas de peso, um feito raramente repetido desde então e que segue sendo citado por comentaristas australianos como referência histórica do esporte no país.

Depois de dois amistosos em 1999 (uma vitória brasileira por 2 a 0 e um empate por 2 a 2), o confronto seguinte aconteceu já em Copa do Mundo, em 2006, na Alemanha. O Brasil segurou a igualdade no primeiro tempo, mas fechou o jogo com vitória por 2 a 0. Sete anos depois, em amistoso disputado em Brasília, a Seleção voltou a golear por 6 a 0, resultado que antecedeu o confronto mais recente, o 4 a 0 de Melbourne em 2017, agora prestes a completar quase uma década.

O time de 2017 já não existe mais

Boa parte da força daquele resultado veio de nomes que hoje ocupam papéis bem diferentes no futebol brasileiro. Thiago Silva, um dos artilheiros daquela noite em Melbourne, encerrou sua trajetória pela Seleção principal ainda antes do ciclo atual, e Taison, autor do terceiro gol, também não faz mais parte das convocações da Amarelinha. Diego Souza, autor do gol histórico aos dez segundos, sequer esteve perto de uma convocação recente.

A comparação com o momento presente reforça o tamanho da reformulação em curso. Depois da eliminação diante da Noruega, o técnico Carlo Ancelotti confirmou publicamente o fim do ciclo de veteranos que estiveram na Copa de 2026, citando nominalmente os casos de Neymar, Danilo e Casemiro. “Acho que com essa Copa do Mundo termina uma geração de jogadores muito importantes”, declarou o treinador, 24 dias depois da eliminação, em entrevista coletiva.

O mercado de transferências europeu, aliás, já reflete essa movimentação de bastidores, num volume de negócios que raramente se vê concentrado em tão poucas semanas para uma mesma seleção. Bruno Guimarães trocou o Newcastle pelo Arsenal em negociação avaliada entre 75 e 80 milhões de libras (algo entre R$ 520 milhões e R$ 547 milhões, considerando o câmbio da época). Casemiro encerrou o vínculo com o Manchester United e assinou com o Inter Miami, onde deve atuar ao lado de Lionel Messi. Danilo Santos segue no radar de grandes clubes, incluindo uma oferta recusada do Palmeiras ao Botafogo avaliada em 28 milhões de euros. Fabinho está livre no mercado depois de deixar o Al-Ittihad, da Arábia Saudita. Endrick retornou ao Real Madrid após período de empréstimo no Lyon, sem destino certo definido, e Luiz Henrique, pouco aproveitado na Copa, pode deixar o Zenit rumo ao Flamengo, negócio estimado em 35 milhões de euros.

Quem entra no lugar da geração que sai

Enquanto a geração que sustentou boa parte dos resultados recentes se despede ou reduz protagonismo, a Fifa já sinalizou publicamente uma lista de dez jovens que podem ganhar espaço no novo ciclo comandado por Ancelotti. Entre os nomes citados pela entidade estão Estêvão, Vitor Reis, Kaiki, Wesley, Andrey, João Pedro, João Gomes, Kaio Jorge, Vitor Roque e Igor Jesus, a maioria com menos de 25 anos e já circulando por clubes europeus de peso.

Estêvão, hoje no Chelsea, recebeu endosso direto de dois ídolos da Seleção. Em entrevista à Record, Dunga e Cafu, únicos capitães brasileiros a erguerem uma Copa do Mundo nas últimas décadas, elegeram o atacante como o melhor jogador brasileiro em atividade, mesmo ele tendo ficado de fora do Mundial de 2026 por conta de uma lesão muscular grave sofrida em abril. Cafu também comentou o tamanho do desafio de Ancelotti frente à reconstrução em curso, ao dizer que o italiano “assumiu uma seleção que já tinha vícios” e agora terá quatro anos inteiros para moldar a equipe à própria imagem.

Outro nome que ganhou destaque público nas últimas semanas foi Rayan, hoje no Bournemouth, citado pelo próprio Ancelotti como exemplo do tipo de conexão que pretende reforçar entre a Seleção principal e as categorias de base. “Há quatro anos, Rayan jogava na sub-17, e ele foi um jogador muito importante na Copa”, disse o treinador, ao justificar o acompanhamento mais próximo das seleções jovens dentro do planejamento rumo a 2030. Kaio Jorge, artilheiro do Cruzeiro nesta temporada, também apareceu na lista da Fifa como opção de ataque a ser observada, depois de já ter recebido minutos com a camisa da Seleção em setembro do ano passado.

O adversário também mudou, mas seguiu outro caminho

Do lado australiano, a trajetória recente segue padrão oposto. Os Socceroos chegaram à Copa do Mundo de 2026 e avançaram até a fase de 16 avos de final, eliminados pelo Egito nos pênaltis, depois de empate em 1 a 1 na prorrogação. O resultado, mesmo com a queda, foi lido pela própria coordenação de seleções da CBF como evidência de evolução da equipe oceânica, justificativa usada para explicar a escolha do adversário logo no início do novo ciclo brasileiro.

O técnico australiano Tony Popovic tratou o duelo como oportunidade de medir a evolução do próprio grupo diante de uma potência histórica do futebol mundial, enquanto o CEO da Football Australia, Martin Kugeler, destacou o caráter simbólico de receber o Brasil em solo australiano logo após a disputa do Mundial. A continuidade de nomes como Behich, Degenek, Leckie, Irvine e Hrustic, presentes tanto no jogo de 2017 quanto no ciclo mais recente, reforça essa leitura de evolução gradual, sem os solavancos de geração que o Brasil está promovendo neste momento.

O primeiro confronto está marcado para 25 de setembro, sexta-feira, no Queensland Country Bank Stadium, em Townsville, com capacidade para mais de 25 mil torcedores. A partida seguinte acontece quatro dias depois, em 29 de setembro, no Suncorp Stadium, em Brisbane, arena com mais de 52 mil lugares que já recebeu compromissos da Seleção feminina em 2023 e um amistoso masculino contra a própria Austrália em 2024. Depois da passagem australiana, o Brasil segue viagem até Calcutá, na Índia, para o primeiro confronto da história entre as duas seleções, em 3 de outubro. A convocação para os três compromissos, originalmente prevista para 7 de setembro, foi adiada em um dia por conta do feriado da Independência do Brasil.

Um técnico que também observa o próprio quintal

Mesmo à frente de um trabalho concentrado em decisões sobre o futuro imediato da Seleção, Ancelotti já deixou claro que acompanha de perto o que acontece no futebol brasileiro cotidiano. Em entrevista recente à ESPN, o italiano revelou que Abel Ferreira, técnico do Palmeiras desde 2020, é o treinador do Brasileirão que mais gosta de acompanhar, elogio direto a um dos comandantes mais vitoriosos do país nos últimos anos, com duas Libertadores, dois Campeonatos Brasileiros e uma Copa do Brasil no currículo à frente do clube paulista. O comentário reforça a lógica por trás da reconstrução, avaliação constante de talentos e de métodos, independentemente de já fazerem parte ou não do radar imediato da Seleção principal.

Essa atenção ao cenário doméstico também aparece na decisão de manter observadores da CBF presentes nos principais confrontos do calendário nacional, incluindo os clássicos das quartas de final da Copa do Brasil, prática que reforça o caráter contínuo do processo de garimpagem que vai definir boa parte dos próximos convocados, muito além dos dois amistosos de setembro contra a Austrália.

Onze confrontos de Brasil x Austrália, oito vitórias brasileiras, dois empates e uma única derrota podem sugerir favoritismo tranquilo para setembro, mas o contexto dos dois times conta uma história mais complexa do que a simples soma de resultados históricos. De um lado, uma seleção australiana que manteve base de elenco e cresce de forma sustentada há quase uma década. Do outro, uma Seleção Brasileira que decidiu recomeçar do zero, trocando nomes consagrados por promessas ainda em fase de confirmação.

O próprio retrospecto de 2017, com o gol mais rápido da história da Amarelinha e uma goleada tranquila em solo australiano, serve hoje mais como curiosidade estatística do que como parâmetro real de comparação. O Brasil que pisa em Townsville e Brisbane em setembro é, em praticamente todos os aspectos relevantes, um time diferente daquele que goleou em Melbourne, e é exatamente esse contraste entre passado dominante e presente incerto que transforma os dois amistosos em algo mais interessante do que uma simples formalidade de calendário.

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