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Caminhos Cruzados: Futebol, política e antifascismo

Foto: Staff Images/Allianz Parque

Já não é de hoje que o Brasil apresenta um noticiário político pra lá de movimentado. A polarização, que se tornou característica no país, e a escalada no tom de grupos de extrema-direita, como por exemplo os ‘300 do Brasil’, contra o STF e a Câmara dos Deputados, provocaram uma reação de oposição que teve origem de um lugar pouco provável: o futebol. 

Mesmo com um vasto histórico do entrelaçamento entre o esporte bretão e o meio político, a famosa frase “futebol e política não se misturam” se tornou um clichê frequentemente difundido em rodas de conversa e até mesmo na grande mídia. 

Regimes fascistas como o de Mussolini e de Franco já utilizaram o futebol como meio de propagar seus ideais hegemônicos, por exemplo. Já as torcidas de Rayo Vallecano e St. Pauli são conhecidas por sua luta antifascista. 

MAS AFINAL, FUTEBOL E POLÍTICA SE MISTURAM? 

Para o professor Flávio de Campos, historiador especialista em história sociocultural do futebol, a resposta é categórica. 

– Futebol e política são indissociáveis, não é que se misturam – afirmou.

– É importantíssimo olhar para o futebol e identificar quais são as tensões e conflitos políticos que a cada momento histórico o futebol carrega – continuou o historiador.

Ele ainda relembrou um dos momentos históricos dessa relação político-esportiva para traçar um paralelo com o atual momento. 

– Passados 36 anos da Democracia Corinthiana, a gente vive no Brasil uma politização dos atletas. Só que essa politização se dá numa chave mais autoritária, mais conservadora – pondera o professor, que aponta esse processo ressaltando, também, um discurso “apolitizador”, que é um dos mecanismos pelos quais o fascismo – que é de extrema-direita – consegue abrir espaço. 

Flávio aponta ainda que a instrumentalização política do futebol pode vir de diversas formas, como a história já provou. 

– Temos vários exemplos da utilização do futebol, tanto em uma chave mais autoritária, quanto em uma chave de contestação, de crítica social. 

O notório processo de polarização política que se dá no país desde as Jornadas de Junho, em 2013, também é refletido no meio do futebol, que, segundo o professor é “um espaço privilegiado para o entendimento do Brasil”. 

Vale lembrar também a existência de clubes que essencialmente representam ideais e posicionamentos políticos, como é o caso de Barcelona, Athletic Bilbao e Livorno, por exemplo.

PARTICIPAÇÃO E PROTAGONISMO DE TORCEDORES EM PROTESTOS PRÓ-DEMOCRACIA

Os recentes movimentos pró-democracia que têm tomado a Avenida Paulista, em São Paulo, há cerca de um mês, são frutos de uma organização de coletivos de torcedores progressistas e antifascistas. 

Atualmente, com a participação de torcedores de diversas equipes paulistas, essas manifestações tiveram origem corintiana, como conta Marcos Gama, fundador do coletivo de palmeirenses progressistas ‘Porcomunas’. 

– A gente conversa muito com torcedores de outros clubes e um grupo de corintianos, sem envolvimento com a Gaviões, saiu na paulista aquele dia (do primeiro protesto). E a gente tava apoiando isso – contou Gama. 

Reparando o sucesso da ação desses torcedores corintianos, a presença de outras torcidas e coletivos foi notória a partir do segundo ato, e se deu de forma pacífica.

– O pessoal ficou puto com o que está acontecendo. Ninguém sai, ninguém manifesta contra o governo e os caras fazendo o que querem. Então nós aproveitamos o embalo dos corintianos e fomos junto. Não que a gente está lá de mãos dadas com os caras – brincou Gama.

– Estamos juntos pela mesma causa – destacou.

A capacidade de mobilização desses coletivos, mesmo que advinda de uma experiência de ‘silenciamento’ nas arquibancadas, causou uma impressão positiva e que, na opinião do historiador Flávio de Campos, já fez surtir efeitos práticos. 

– Vejo nesse fenômeno algo muito positivo e que, mais uma vez, passa pelo futebol. O que intimidou esses grupos fascistas que há dois meses estavam sozinhos nas ruas, fazendo carreata, fazendo manifestações em frente a hospitais, atacando Congresso Nacional e o STF, foi a resistência vinda do futebol. 

A ascensão de grupos de torcedores autoproclamados antifascistas e progressistas vem em um momento de plena pandemia, com jogos de futebol suspensos e, portanto, sem torcedores nas arquibancadas. 

Para o professor, que também coordena o Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (LUDENS), esse fator tem uma influência direta no crescimento da evidência desses “coletivos de resistência”, como costuma chamar. 

– O espaço de expressão desses coletivos nos últimos dez anos tem sido, sobretudo, as redes sociais. Eventualmente é o espaço das arquibancadas – explicou.

– Só que nesse momento não tem mais arquibancada, que ou era ocupada pelas torcidas organizadas, ou por torcedores mais elitistas – continuou. 

ANTIFASCISMO NO FUTEBOL 

Famosos, numerosos e já antigos na Europa, os coletivos antifascistas no meio futebolístico somente passaram a ter um holofote maior no Brasil em 2020. O fundador da ‘Porcomunas’ e o historiador enxergam nas experiências europeias diferenças e semelhanças para os coletivos brasileiros se atentarem. 

– Na Europa, os grupos antifascistas surgiram justamente porque os fascistas começaram a botar a cabeça pra fora. Agredindo, com racismo – disse Gama.

Flávio de Campos ainda explica que o surgimento desses coletivos antifascimo tem como background dois momentos históricos que se entrelaçaram. 

O sentimento nacionalista e extremamente fascista da década de 20 na Europa ressurgiu como reação à onda imigratória de refugiados de povos africanos, latinos e asiáticos que ocorria no final dos anos 80, o que ocasionou a aparição dos Ultras de extrema-direita. Como oposição a essa filosofia, surgiram os Ultras antifascistas. 

– Juntando essas duas vertentes, nós temos no âmbito do futebol a formação ou aparição de torcidas Ultras de direita. Fascistas ou nazistas – explica.

– Em reação a isso, há a formação de torcidas Ultras de esquerda.

Um desses notórios casos é o do Borussia Dortmund, que chegou a ter a formação de uma torcida de extrema-direita, mas que foi rapidamente abafada por ações de torcidas antifascistas e da própria diretoria do clube. 

Diretorias do St. Pauli e do Borussia Dortmund realizaram ação afirmativa conjunta em favor dos refugiados

Nos tempos de Hitler, inclusive, funcionários do time aurinegro chegaram a ser mortos pelo regime pro propagarem material antinazismo, produzidos nas instalações do Borussia. 

– No Brasil, esses coletivos começam a aparecer com mais visibilidade há uns 10, 15 anos. Eles têm pouquíssimo espaço nas organizadas, ou quase nenhum; e também tem pouco espaço na expectação dos torcedores ‘bem acomodados’ nas arenas – afirmou. 

Mesmo com isso, a crescente influência de grupos de torcedores pró-democracia tem aberto o debate sobre fascismo dentro de algumas das maiores torcidas organizadas do estado de São Paulo. 

– Os coletivos estão sinalizando a defesa da democracia, e a maior parte das torcidas organizadas discutiu internamente seu posicionamento – explicou o historiador, que ressaltou também a distinção entre esses coletivos, as torcidas organizadas e o torcedor comum. 

– Algumas torcidas decidiram não se posicionar. Outras decidiram se posicionar contra o Bolsonaro. Setores de uma torcida do Palmeiras, por exemplo, se manifestaram pela ditadura, pelo Bolsonaro, e foram duramente repreendidas pela diretoria da Mancha Verde, pelo principal líder da torcida, Paulo Serdan – lembrou.

– A Mancha Verde oficialmente não esteve na Paulista junto com a Gaviões da Fiel (nas manifestações), mas o Serdan publicou um comunicado dizendo que a Torcida Mancha Verde repudiava qualquer apoio fascista, apoio à ditadura, apoio autoritário de qualquer um de seus membros. Portanto ele desautorizou e repreendeu aquele grupo de palmeirenses que tentou falar em nome da Mancha Verde e em favor do Bolsonaro.

Tanto Gama, quanto Flávio enxergam que o movimento antifascista dentro do futebol brasileiro tem todas as condições para germinar e criar raízes na arquibancada e nos meandros do ambiente futebolístico. 

– Ah, eu acho que sim […] O fato de ter acontecido os atos, penso que muita gente agora vai criar coragem pra ir pra rua. Isso aí vai crescer – declarou Marcos. 

– Nós vamos ter que travar uma luta política com relação a essa corrente fascista. Digo isso porque essa ‘disputa ideológica’ envolvendo o futebol vai permanecer. E vai permanecer também nos vestiários, pois se grande parte dos atletas se posicionou a favor do Bolsonaro, também ocorreram manifestações contra ele – ponderou o professor.

Essa “disputa” é levada muito a sério por alguns clubes e torcidas na Europa, onde as cicatrizes deixadas pelo nazismo são profundas. Vale ressaltar como exemplo recente o caso do Rayo Vallecano com o jogador ucraniano Zozulya.

Em 2017 o atacante foi rechaçado pela torcida dos Bukaneros ao ser contratado. O motivo? Zozulya é neonazista declarado e chegou até a fazer saudações nazistas publicamente, além de ter sido apoiador do Exército Popular, famoso grupo paramilitar de neonazis da Ucrânia.

Ao retornar a Vallecas, dessa vez como visitante com o Albacete, em dezembro de 2019, Zozulya foi extremamente vaiado e inclusive ouviu cânticos sobre sua afiliação nazista ao ritmo de “Bella Ciao”. A partida, válida pela Segunda Divisão espanhola, foi encerrada no intervalo por decisão do árbitro Antonio López Toca.

O FUTEBOL COMO CAPITAL POLÍTICO 

A evidente capacidade do futebol de agregar capital político a governantes é explorada há muito tempo. O exemplo mais vivo disso na memória do torcedor brasileiro é, talvez, a capitalização da vitória do Brasil na Copa de 70, no México. 

A publicidade feita em cima do triunfo canarinho gerou, por exemplo, a famosa canção “Pra Frente Brasil”, que ficou na cabeça de muitos. Recentemente o jingle, cunhado em plena ditadura militar, foi utilizado pela ex-secretária da Cultura, Regina Duarte, para evocar um sentimento de nacionalismo, em entrevista à CNN Brasil. 

Entretanto, o historiador Flávio de Campos relata que o uso do esporte bretão como forma de angariar relevância política vem de antes do período da ditadura militar no Brasil.

-Em 1950, na famigerada Copa perdida no Maracanã pro Uruguai, por 2 a 1, na véspera da final, diversos políticos vão a concentração da Seleção Brasileira para tirar foto, para tentar obter um pouco do prestígio que aquela seleção, até então favorita, poderia oferecer. 

Mesmo com o longo histórico que essa prática tem no Brasil, Flávio e Gama enxergam a aproximação do atual presidente da república com o futebol como algo digno de estranhamento.

– O dia em que foi à comemoração do campeonato (Brasileirão de 2018), que o Bolsolini (Jair Bolsonaro) entrou em campo, ele podia ter ido no jogo, mas não entrar em campo para capitalizar uma festa que não era dele – afirmou o palmeirense Gama.

– (Bolsonaro) Nunca foi no Palmeiras, nunca vi esse cara na arquibancada. Isso revoltou muita gente”, lembrou. 

Jair Bolsonaro ergue a taça do decacampeonato palmeirense
Foto: Staff Images/Allianz Parque

– Ele já vestiu camisa do Botafogo, do Vasco, do Flamengo, do Palmeiras, não sei se vestiu do Corinthians… isso revela um oportunismo mesmo, essa demagogia que nós também temos que desmascarar. Eu só vesti camisas que fossem de times rivais ao Palmeiras quando perdi aposta – brincou Flávio.

– O Lula, por exemplo. Não há dúvidas de que ele seja corintiano. O que Bolsonaro faz é outra coisa. Ele emite sinais de identificação clubística quando na verdade isso só serve para mascarar a sua falta de compromisso com o futebol, porque somente uma pessoa compromissada com o futebol sabe da importância da identidade clubística – analisou o especialista.

Flávio de Campos, palmeirense assumido, ainda se fez exemplo para ilustrar como cenário de identidade com clubes é praticamente sagrado no futebol.

– Seria ofensivo a mim, à minha família, a meus filhos que foram doutrinados desde pequenos a torcer pelo Palmeiras… Imagine um filho meu olhar e ver o pai com uma camisa do Corinthians fazendo uma entrevista. Isso é descabido, é uma falta de caráter – afirmou.

– É o que o Bolsonaro revela sempre que faz isso, falta de caráter e falta de apreço ao futebol.

O professor, entretanto, adenda que o uso do capital político que o futebol oferece não é somente de uso fascista, uma vez que já foi utilizado por outros espectros políticos. 

– O Bolsonaro não é o primeiro e não é só o fascismo que vai tentar se aproveitar da importância das conquistas desportivas em geral, e futebolísticas em particular. Isso sempre ocorreu em diversos países, no Brasil, sempre ocorreu e vai voltar a acontecer. Isso não é novidade. 

ELITIZAÇÃO DO FUTEBOL E FASCISMO 

A elitização do futebol nacional é uma realidade notória. Após sucessivos eventos esportivos de escala global, o desenvolvimento do esporte brasileiro passou por um processo de mercantilização mais intensificado, com o surgimento de novas arenas e o aumento do preço de ingressos, por exemplo. 

O professor Flávio de Campos relembrou que esse processo teve o caminho calcado principalmente por erros na gestão esportiva nos governos do PT. 

– Os governos petistas tiveram nas mãos uma agenda esportiva tremenda e, ao invés de implementar um projeto reformador e inclusivo, cederam à lógica dos megaeventos esportivos – ressaltou. 

Maracanã é um dos estádios que foram “arenizados” no Brasil
Foto: Alexandre Vidal / CRF

Dessa forma, a “arenização” esportiva tornou-se um dos elementos que formam essa complexa equação que envolve política e esporte. 

Os ideais fascistas são notoriamente embasados em uma filosofia elitista e, a partir disso, o professor Flávio adenda que esse processo, iniciado por um governo de esquerda, tem consequências diretas na atual amplificação de vozes pró-fascismo dentro do ambiente futebolístico. 

– É um paradoxo. Esse processo de gentrificação e elitização dos espaços de expectação das arquibancadas, ele abre um espaço que quem hoje tenha condições de frequentar as arenas? – questiona. 

– Há hoje um público nas arenas muito diferente do de 20 anos atrás. Em 2001, 2002, ainda tínhamos espaços nos estádios que eram setores populares. Hoje esses espaços praticamente não existem. Então, muda o perfil do torcedor e, com isso, todo esse crescimento dessa corrente mais à direita da sociedade brasileira.

Gama, fundador da Porcomunas, também vê um movimento de “sequestro” do futebol, afastando as massas menos privilegiadas dos estádios. 

– Nós estamos sofrendo uma elitização do futebol muito grande, por causa das arenas. Isso restringiu aquele torcedor popular – atentou Gama. 

Para Flávio de Campos, o atual cenário futebolístico é um claro retrato do que se externa hoje na sociedade brasileira, uma vez que, como ele mesmo afirmou, são elementos indissociáveis. 

– O futebol é um poderoso operador cultural, e é um elemento em disputa por diversos setores sociais. Nós vivemos hoje, no Brasil, a exemplificação disso. De como os elementos e símbolos do futebol, e até a prática do futebol, estão em disputa. E a cada momento histórico, nós temos a resultante dessa disputa.

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