Bastidores ENM

Economista aponta clubes que devem sofrer mais com a crise causada pela Covid-19

A coluna Bastidores ENM conversou com Fernando Ferreira, economista da Pluri Consultoria, empresa especializada em gestão esportiva. A intenção foi entender como está a situação dos clubes brasileiros com a crise mundial causada pela pandemia de Covid-19, que, claro, também afetou o futebol.

Na entrevista, Fernando Ferreira afirmou que a crise vai atingir os clubes brasileiros de maneira diferente. Para ele, clubes como Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo, Atlético-MG e Cruzeiro deverão ser os mais impactados com a queda da economia e, consequentemente, poderão chegar ao estado de falência esportiva.

Por outro lado, ele também analisou quais clubes poderão sofrer menos por já estarem num caminho de segurança financeira antes da pandemia, que gerou uma crise sem precedentes no futebol brasileiro, segundo o especialista.

O economista demonstrou, ainda, preocupação com os clubes menores, que são a maioria do futebol brasileiro e que convivem com calendário curto sobrevivendo de estaduais deficitários. Neste contexto, Ferreira destrinchou as maneiras como a CBF poderia agir a fim de atenuar a crise na vida dos grandes e pequenos.

Confira abaixo a íntegra da entrevista com Fernando Ferreira, da Pluri Consultoria!

Esporte News Mundo: Em abril, a CBF estimou que o impacto da pandemia no futebol brasileiro poderia ser de R$ 4 bilhões. Atualmente, esse valor pode ser ainda maior. O que essa perda substancial pode representar na vida dos clubes, que, em sua maioria, já não estão bem financeiramente?

Fernando Ferreira: Não vi esse número, não sei de onde a CBF tirou. Acho alto. Mas, não corroborando com o número, mas sim há uma perda substancial. Nós (da Pluri Consultoria) estimamos uma perda de R$ 1,6 bilhão para os 35 maiores clubes, que são mais da metade do mercado tranquilamente. Em torno de 80% do mercado.

Essa perda pode ser maior a depender basicamente dos direitos de transmissão, se o campeonato começa em julho ou não. Aparentemente, deve começar.

Essa crise pega os clubes em estados de gestão bastante diferentes. Há clubes que já vinham com atrasos de salários muito alavancados, muito endividados. A situação desses clubes piorou, e vão sofrer mais. Não há falência das entidades associativas, mas há falência esportiva, da capacidade de cumprir seus compromissos e conseguir botar um time competitivo em campo.

Ao longo do tempo, isso traduz em rebaixamento dentro de campo e incapacidade de retorno às posições anteriores. Então, o risco da pandemia é que a incapacidade de continuidade das operações no patamar anterior leve à falência financeira.

Vários clubes estão nessa situação. Em geral, os que já vinham mal. Os que vinham fazendo bom trabalho tendem a continuar fazendo um bom trabalho, tende a ser menos impactante para quem está um pouco melhor.

Quem são os clubes que estão melhor? Flamengo, Palmeiras, Grêmio, Fortaleza, Ceará, Goiás, Bahia, Athletico-PR, Red Bull… esses estão em vantagem.

E os que vêm mal? Vasco, Botafogo, Fluminense, Atlético-MG, Cruzeiro, agora o Corinthians, São Paulo. Piorou um pouco para esses que tiveram pioras nos seus números e que vai se refletir de maneira dramática com a pandemia. O risco final é a falência esportiva, a perda de importância dentro de campo. Os casos mais emblemáticos são Portuguesa e América-RJ.

ENM: Uma crise como essa do novo coronavírus tem precedente no futebol brasileiro?

FF: Não tem. Nunca houve nada igual. O futebol vem numa trajetória de crescimento grande de receitas. Só este ano o crescimento das receitas dos clubes foi de 17%. Nos últimos cinco anos, as receitas dobraram, num país que a taxa de crescimento não chega a 1% ao ano.

O futebol está muito à frente de outras atividades e vinha num ritmo de crescimento quase imparável há mais de 10 anos. O grande problema é que os clubes não aproveitam essas receitas para se sanear financeiramente. Se tivessem feito isso, estariam numa outra situação.

ENM: Além do impacto direto da pandemia no futebol nacional, há o indireto que vem do exterior. Clubes e empresas internacionais também passaram e ainda passam pela Covid-19 e devem pisar no freio e evitar maiores gastos com contratações e patrocínios, por exemplo. O que a conjuntura internacional pode causar no nosso futebol?

FF: O fato principal aqui é na parte de transferências dos jogadores. Em patrocínio tem um efeito pequeno porque o mercado brasileiro não é internacionalizado, sem grandes patrocinadores. Curiosamente, o Flamengo está fechando com a Amazon. Aqui não é como a Europa, onde as grandes empresas disputam para estar no mercado.

Então, o efeito é no mercado de transferência, onde houve um aumento de 320% na receita com venda de jogadores nos últimos cinco anos. Esse aumento de receita turbinou o aumento do setor como um todo.

Só no ano passado, mais um crescimento significativo: as receitas dos 35 maiores clubes alcançou R$ 1,8 bilhão com venda de direitos econômicos, enquanto os direitos de transmissão bateram em R$ 2,1 bilhões, tendo pela primeira vez alguma receita chegando próxima à dos direitos de transmissão.

As vendas ano passado já representaram 27% do total dos faturamentos dos clubes no Brasil. Se não fosse a covid-19, provavelmente este ano a receita de venda de jogadores seria a primeira do futebol brasileiro, porque as receitas de TV estão muito próximas do teto, devem cair, enquanto as vendas de atletas continuam subindo.

Mesmo com a covid-19, já tínhamos vendido muito. Se não fosse por ela, teríamos um novo recorde. Achamos que o impacto vai ser significativo, mas é bom aguardar um pouco porque há uma grande liquidez no mundo, e já vemos um rally de recuperação de parte das perdas até o mercado se equilibrar.

De qualquer forma, teríamos demanda pequena por comprar. Mas como lá fora o mercado tem acesso a capital, talvez haja uma compra de oportunidade aí. E o Brasil por ocupar uma posição nesse cenário poderia ser menos penalizado porque é mais barato comprar daqui. Vamos verificar, já fui um pouco mais pessimista do que estou hoje.

ENM: Numa análise geral, o futebol brasileiro poderá entrar num colapso após a pandemia – agora, já estamos há quase três meses de paralisação – com impactos no mercado da bola, patrocínios, receitas de TV etc.?

FF: o colapso vem se o Campeonato Brasileiro não voltar em julho, em agosto ou neste ano. Porque se houver um rompimento de contrato dos contratos de TV, vai afetar muito a receita. Porque com 30% da receita vindo da TV e cotas de participação, é uma receita que está sendo repactuada, mas não está sendo reduzida.

A gente vai ter uma situação muito ruim e impactante para as finanças dos clubes. Os menores e os que estavam muito ruim financeiramente vão ter dificuldades operacionais. Outros vão ter também, mas vão atravessar esse período. Se não voltar em agosto e houver um corte no valor dos contratos, aí o cenário fica bem mais dramático.

ENM: Além de uma administração responsável, o que os clubes podem fazer para passar por esse turbilhão ao fim da pandemia até a recuperação da economia global com maiores investimentos?

FF: Basicamente, tudo se resume a essa administração responsável. Os clubes podem sentar com seus atletas, pois é a maior parte das contas: 40% a 50% das despesas de um clube de futebol estão no elenco profissional com encargos mais comissão técnica. Aí você tem que atuar, repactuar teu custo.

Os clubes brasileiros operam alavancados com custos incompatíveis com a receita, numa situação limite e sem margem para acomodação num evento como esse (covid-19). É mais gestão. Mesmo as gestões melhores ainda não são o que precisamos. São pontuais e exceções ainda.

Tem que ter foco no custo, porque é complicado neste momento, pois tudo você tem que combinar com o vírus, um fator exógeno dramático sendo o pior de tudo a indefinição, que leva a uma paralisia. Na incerteza, tudo é possível, uma certeza ruim que você começa a trabalhar em cima de um fato, mas hoje ainda há uma incerteza grande.

ENM: Como a CBF, entidade reguladora do futebol brasileiro, pode reduzir os efeitos negativos da pandemia na vida dos clubes? Apenas liberar dinheiro resolve?

FF: Liberar dinheiro é uma coisa importante, mas ela não tem feito isso. O que tem liberado são valores insuficientes. Há três questões que a CBF pode fazer: primeiro, uma situação de emergência que é dinheiro mesmo, vive do futebol, não entra em campo e tem mais de R$ 1 bilhão em caixa. Precisa atuar emergencialmente para ajudar os clubes.

Ao fazer isso, teria legitimidade para pleitear em nome dos clubes de futebol algum tipo de repactuação de pagamento de Profut, antecipação de loteria com a Caixa, antecipação de receitas ou algum fundo de recebíveis para financiar os clubes com a contrapartida para melhorar o patamar de governança, gestão e eficiência do futebol brasileiro. Isso é o que deveria fazer.

Uma parte emergencial, colocando do próprio bolso. Forçar as federações a ajudar também os clubes dos seus estados, pois são mais de 1500 clubes sem calendário. Daí vai ter a legitimidade de propor a busca de recursos para financiar os clubes, com a contrapartida de ações para mudar o patamar do futebol brasileiro. Mas ela não vai fazer nada disso, vai deixar cada um resolver o seu caso, como sempre.

ENM: Pensando num contexto maior, o que a Conmebol e a Fifa podem fazer no mesmo sentido?

FF: Acho que esse papel é mais das federações nacionais e estaduais, no caso do Brasil, do que de Conmebol e Fifa, que podem fazer mais ajustes de calendário, ajustes de janela de transferência e melhora de governança para atrair mais investidores para o mercado.

Mas o mercado é muito assimétrico, porque alguns são muito desenvolvidos com padrão de governança e outros, que são a maioria, muito ruins. Então, deve forçar as federações a apresentar um plano em cada país de apoio.

ENM: Em tempos normais, os pequenos clubes já sofrem com calendário e receitas reduzidos. Com a pandemia, esse panorama se acentuou. É muito difícil esses clubes resolverem-se sozinhos. Como atacar esse problema?

FF: Esses clubes precisam de ajuda. São 650 clubes no Brasil, 128 das quatro séries nacional têm calendário anual. Outros 522 dependem de estaduais, que já são deficitários e que duram pouco tempo. São chamados de clubes profissionais, mas que atividade profissional dura três meses no ano e pode ser chamado de profissional? Nenhum. Atacar o problema é dar sustentabilidade para o negócio deles, precisam de subsídio, precisam de repartição de bola: 2% das contas de direitos de TV poderiam colocar esses caras para jogar o ano inteiro, ter atividade e movimentar uma indústria.

Transformar o futebol numa indústria é o que tem que ser feito pela CBF junto às federações, porque se precisa gerar, num plano de longo prazo para reestruturar isso, e, no curto prazo emergencialmente, é o papel das federações e confederações ajudarem esses clubes tanto financeiramente como a arrumar crédito.

Usem as influências políticas deles, que são grandes, para ajudar e preservar a própria indústria. Isso que todos os setores estão fazendo agora.

ENM: Dos clubes que foram possíveis analisar os balanços financeiros em relação a 2019, quais clubes terão as vidas mais complicadas num futuro próximo? Eles podem ter com a crise da pandemia uma oportunidade para conseguirem, enfim, acertar as contas?

FF: Os que terão vida mais dura são os que estavam mais alavancados (nas contas): Sport, Vasco, Fluminense, Botafogo, Santos, Cruzeiro, Atlético-MG, Corinthians. Clubes que vinham com problemas financeiros e que se acentuaram nesse período.

Se vai ser uma oportunidade para acertarem as contas, acho difícil. Porque, quando vem uma crise como essa, o ponto passa a ser sobrevivência. Então, você opera em modo de sobrevivência. Isso não é estruturação, é evitar a falência esportiva.

A grande oportunidade que a pandemia traz seria os clubes se juntarem para atacar problemas comuns, já que há discussão de que o futebol está chegando ao ponto limite. Se está chegando ao ponto limite, vamos discutir as questões que nos trouxeram ao ponto limite.

Temos um calendário que é um problema e precisa ser atacado; temos questões de negociação de direitos de transmissão; falta de uma liga legal e um campeonato que não é promovido como deveria e que não é avaliado como produto. Só agora começamos a vender direitos internacionais, o que o mundo inteiro faz há muito tempo.

Então, a rigor, seria a chance de montar uma associação de clubes, melhorar o calendário, melhorar o produto, tornar mais interessante, chamar players para oferecer esse mercado e não depender de uma única emissora de TV, olhar para o digital e para o streaming, porque isso já está atropelando, e os clubes não estão preparados para essa operação. Isso que abre a oportunidade de transformação.

Mas acho que nada vai acontecer (acerto das contas), porque, como disse, os clubes estão num estado de emergência e ninguém está pensando no estrutural.

FF: Você é otimista ou pessimista em relação à recuperação rápida do futebol brasileiro após a pandemia? Por quê?

Estamos trabalhando com 25% de perda de receita dos clubes. O que vai mudar em relação a isso é, principalmente, o mercado de transferências. Esse é o recurso que pode voltar mais rapidamente. Os clubes vão ser afetados em todas as outras rubricas, demorando um pouco mais para recuperá-las. A receita que pode ser afetada e voltar de maneira mais rápida é a de direitos econômicos de atletas.

Então, sou pessimista no curto prazo, mas otimista no médio e no longo. Eu acho que a recuperação, do ponto de vista econômico, está mais para V do que para U, uma recuperação fundo-topo. Acho que o mercado bateu já no pior e não acho que volte a derreter.

Os estímulos monetários e fiscais dados no mundo são poderosos suficientes para ajudar na recuperação econômica. Não num espaço de três, cinco anos, acho que a gente começa a recuperar mais rápido, porque há muita liquidez e dinheiro. Não houve destruição de riqueza, foi de empregos. Mas boa parte deles começa a se recompor. Acho que o mercado tende a caminhar numa normalidade no formato de V do que de U.

Isso acontecendo, o mercado de futebol é impactado, no caso brasileiro, na venda de jogadores. Como a taxa de câmbio está favorável, isso pode ser um atenuante. Por aí pode amenizar. Mas 2020 é um ano para esquecer. Trabalhar e pensar para 2021 e começar a recuperação.

@MarceloRsde

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