Disputas aéreas no futebol, choques no basquete, tackles no rúgbi e golpes nas artes marciais têm algo em comum: todos podem resultar em traumas faciais capazes de afastar atletas das competições por semanas ou até meses. Quando o impacto provoca fraturas na mandíbula, na maxila ou em outras estruturas da face, a recuperação deixa de ser apenas uma questão ortopédica e passa a exigir reconstruções de alta complexidade.
Os danos comprometem funções essenciais do organismo. Respirar, mastigar, falar e manter a estabilidade da mordida tornam-se desafios imediatos após o trauma. Para atletas profissionais, qualquer alteração na biomecânica da face também interfere na alimentação, na preparação física e no desempenho esportivo, fatores que influenciam diretamente o tempo necessário para o retorno às atividades.
O tratamento desses casos é conduzido pela Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial, especialidade responsável pela reconstrução das estruturas ósseas da face e pela recuperação de sua funcionalidade. O planejamento busca devolver ao paciente as condições necessárias para retomar sua rotina sem limitações permanentes, preservando o máximo possível da anatomia original.
Para o cirurgião buco-maxilo-facial Eduardo Sansevero, a prioridade nunca é apenas corrigir a fratura.
“No atleta de alto rendimento, preservar a função é o primeiro passo para preservar a carreira. Em traumas faciais graves, estabilizar corretamente a estrutura óssea significa restabelecer a respiração, a mastigação e a oclusão, fatores que influenciam diretamente o desempenho esportivo. A estética é consequência de uma reconstrução funcional bem executada”, afirmou.
Formado em Odontologia em 1999 e especialista em Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial pela Universidade de São Paulo entre 2004 e 2006, o cirurgião atua há mais de duas décadas em reconstruções ósseas complexas e já realizou mais de 3 mil cirurgias com implantes osseointegrados. Ao longo da carreira, concentrou sua atuação em procedimentos de maior complexidade, frequentemente realizados em ambiente hospitalar.
A complexidade desses tratamentos também aparece na literatura científica. Estudos relatam taxas de sobrevivência de implantes próximas de 95% após cinco anos em procedimentos reconstrutivos. Ao mesmo tempo, complicações ainda podem ocorrer em cerca de 39% dos pacientes, enquanto alterações sensoriais persistentes variam entre 1% e 43%, dependendo das características clínicas e da extensão do trauma.
No esporte profissional, esses números têm um peso adicional. Uma limitação funcional aparentemente discreta pode comprometer o rendimento, prolongar o processo de reabilitação e até impedir que o atleta retorne ao mesmo nível competitivo apresentado antes da lesão.
A incorporação da inteligência artificial e do planejamento cirúrgico virtual modificou significativamente a preparação dessas cirurgias. Softwares processam exames tomográficos em poucos segundos, permitindo simular reconstruções, definir o posicionamento de placas e parafusos e produzir guias cirúrgicos personalizados por impressão 3D antes mesmo da entrada do paciente no centro cirúrgico.
Ensaios clínicos indicam que protocolos assistidos por inteligência artificial elevaram as taxas de sucesso das reconstruções para cerca de 92%, frente a 78% observados em métodos convencionais. A incidência de complicações também apresentou redução, passando de 18,7% para aproximadamente 8%.
A previsibilidade proporcionada por esse planejamento permite procedimentos mais precisos, com menor tempo cirúrgico, menor manipulação dos tecidos e recuperação potencialmente mais rápida. Para atletas submetidos a calendários intensos de treinamento e competição, reduzir o período de afastamento representa um dos principais objetivos da equipe médica.
As imagens do impacto costumam ocupar poucos segundos das transmissões esportivas. O processo de reconstrução, entretanto, pode se estender por meses e envolve tecnologia, planejamento e decisões tomadas muito antes da cirurgia começar. É nesse trabalho, realizado longe dos holofotes, que muitas carreiras encontram a possibilidade de voltar ao mais alto nível de desempenho.
*Por Yuri Donegate