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Exclusivo: Ao ENM, Bruno Formiga analisa surra do Bayern, Neymar e momento “tatiquês” do jornalismo

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Comentarista Bruno Formiga, do grupo Turner. Foto: Arquivo pessoal

Transição, amplitude, entrelinhas, compactação. Essas palavras são apenas alguns exemplos de termos que estão ficando cada vez mais na boca de quem assiste futebol. Para algumas pessoas, inclusive dentro do próprio jornalismo esportivo, esse é um âmbito que não deveria ser muito explorado. “Repórter tem que cobrir o dia a dia do clube e não falar em 4-1-4-1”. Há quem diga isso. Mas e o torcedor que quer entender cada vez mais do que ocorre no campo? Pode ficar tranquilo, leitor. Se depender do entrevistado para lá de especial desta segunda-feira, o comentarista Bruno Formiga, do grupo Turner, você vai entender mais e mais do jogo e ter análises cada vez mais profundas.

Em um papo rápido, porém bastante intenso, o jornalista cearense falou sobre esse movimento que está cada vez mais comum em transmissões internacionais de futebol (como mapas de calor no Campeonato Espanhol) e começa a ganhar espaço no Brasil: a leitura e análise tática de um jogo. Afinal, a equipe de transmissão só deve mostrar o jogo e fazer comentários básicos para ilustrar o que acontece em campo para o torcedor ou deve ir mais além? Que o gol de Müller contra o Barcelona foi um golaço todo mundo já sabe. Todos viram. Mas como foi que o alemão ficou tão livre para tabelar com Lewandowski e abrir o placar para o Bayern com apenas dois minutos de jogo? Aí entram em cena comentaristas como Bruno Formiga. Ele não só olha para a bola e comenta sobre o que obviamente todos viram. Ele vai além e procura enxergar, através de padrões repetidos, como e porque os times se comportam de tais formas numa partida de futebol.

O craque da comunicação, que já conta com mais de 150 mil inscritos em seu canal no YouTube e 130 mil seguidores no Instagram, também falou sobre o passeio do Bayern de Munique para cima do Barcelona, além do momento de Neymar, as chances do PSG de conquistar a Liga dos Campeões e o possível fim de uma Era no Barcelona.

Confira o papo completo!

Esporte News Mundo: Obrigado por nos atender, Bruno Formiga! Agradeço também à equipe do Esporte Interativo e Turner por ter te liberado para bater esse papo conosco!

Bruno Formiga: Fala, galera. Obrigado! Uma honra estar conversando com vocês. Obrigado pela moral!

ENM: Primeiramente gostaria de saber como você reagiu aos gols do Bayern (8×2 sobre o Barcelona)? Qual foi o primeiro momento que Brasil 1×7 Alemanha passou pela sua cabeça?

BF: Eu confesso que não fiquei surpreso com o resultado. Com o placar, sim. Com a forma, não. Para deixar bem claro. Existe um abismo entre os times e para quem estava acompanhando a temporada isso ficava muito evidente. É uma diferença gigantesca. Acho que foi no gol do Gnabry. “Ah, mas foi só o terceiro”, você pode dizer. Sim, mas ele foi muito sintomático pela forma corporal do Lenglet, pela maneira fácil como o time chega à frente, como o Goretzka estava sozinho no meio para dar o passe de primeira. Uma apatia total. Ali ficou evidente: vai descambar. Tem também o gol do Tomas Müller, por ser ele, o segundo dele no jogo, nos remete muito (ao Brasil x Alemanha). Mas o gol que mostra a diferença de time, é o do Gnabry.

ENM: Quem pode tirar o título do Bayern de Munique?

BF: O Bayern para mim já era o favorito. Terminou a fase de grupos voando, entrou no mata-mata metendo 3×0 no Chelsea, que estava arrumado. E 3×0 em Stamford Bridge! Aquilo para mim já era um recado bem evidente. Eu sempre defendi que o Bayern tem o melhor elenco na atualidade. É o elenco mais equilibrado, com mais peças. Podem não ser peças que as pessoas parem e falem: “Meu Deus, sou fã, que craque!” Mas é um elenco muito próximo todo mundo. Estamos falando de um elenco que, por exemplo, consegue, ao ter um desfalque na lateral, tirar o Kimmich do meio e bota ele na lateral-direita. O Kimmich pode estar na seleção da Champions jogando em uma função e na outra. E aí no meio você abre espaço para Thiago, Goretzka, ainda tem o Javi Martinez na reserva, o próprio Coutinho que, para momentos específicos do jogo, é muito útil. Koman, Süle no banco. É muita força. Então assim, já era favorito e agora só ficou mais evidente. O time que eu achava que poderia, por ter mais estrutura seria o Manchester City, que rodou (caiu para o Lyon, 3×1). Em termos de peça e sangue no olho, talvez o PSG, mas, como engrenagem, o Bayern está sobrando.

ENM: Como você vê o processo de renovação do Bayern de Munique? Desde a contratação do técnico aos jogadores a partir da saída de jogadores como Robben, Ribèry e Lahm.

BF: O Flick não era o plano A. Ele assume de novembro para dezembro depois do time ter tomado uma goleada no Campeonato Alemão. Niko Kovac já tinha perdido um pouco o vestiário. Então você pega o cara com uma experiência gigante em gestão, como auxiliar, um cara muito rodado no futebol, apesar de nunca ter sido um jogador de primeira prateleira. O processo de base que a Alemanha faz, não só o Bayern, de captação, é maravilhoso. Então assim, a Alemanha consegue ter um monitoramento e ter uma geração muito forte. Veja o Gnabry. Estava no Arsenal, visto como um cara que não iria explodir, mas é de uma geração muito lapidada. Você vai lá e faz a captação. Para a próxima temporada já tem o Sané, que tem tudo a ver com o modelo e o estilo do Bayern. Velocidade, amplitude, muito jogo lateralizado. O Davies (lateral-esquerdo canadense) é uma prova desse monitoramento. Não é alemão, mas faz parte de um monitoramento que é muito bem feito pelos times alemães, trabalho de scout maravilhoso. As gerações vão mudando, mas o Bayern vai se adaptando e conseguindo fazer um time que ainda consegue ser avassalador. E fazendo adaptações! Alaba e Boateng, que já estavam lá, formam uma zaga absurda. Alaba voltando a fazer um papel que ele já chegou a fazer em raros momentos com o Guardiola, e fazendo muito bem (zagueiro). O Boateng a mesma coisa. O Süle, que já é um cara dessa nova geração, ficou machucado durante um tempo. Então você tem passagens de bastão que são muito bem feitas. É um clube com um modelo, que é estatutário, e a outra metade ou pouco menos pertence a empresas que têm enorme credibilidade no mercado e confiança. Estamos falando de Allianz, Adidas. De fato é um clube muito consolidado e muito sólido. Basta ver a quantidade de semifinais de Champions League que o Bayern chegou nos últimos anos. O papo de falar que a Bundesliga é fraca… o Bayern que tornou o campeonato em algo hegemônico para ele, mas o Campeonato como um todo é muito bem jogado, muito intenso, e não por acaso temos três técnicos alemães na semifinal da Champions. Isso para mim é algo bem sintomático.

ENM: E quanto ao Barcelona? É o fim de uma era?

BF: O time quis nessa temporada voltar a um DNA que é ultrapassado. Essa é a questão. Você vê aquelas troca de passes, circulação de bola mais lenta, tentando se aproximar de um jogo que o Guardiola fazia, mas fazia com uma execução e peças bem melhores. Não dá mais para o Busquets fazer a saída de bola contra adversários com pressão alta, não tem a menor condição. De Jong pede passagem para fazer isso, Rakitic quando fez isso fez bem melhor que ele. Alguns corações da equipe, aí leia-se Busquets, Piqué e Suárez, eles parecem não entregar mais o que se espera em um altíssimo patamar, mas são donos do vestiário. Então essa passagem de bastão, esse fim de ciclo está bem difícil. Não soube fazer essa troca de bastão. Vai sofrer e está sofrendo com isso. Mas era previsto.

ENM: Como você avalia o Neymar e as chances do PSG contra o Red Bull Leipzig?

BF: Acho que ele nunca foi tão maduro como jogador. Faz uma função hoje de que tem que tomar decisões melhores, mais coletivas. Faz uma função de “playmaker” de camisa 10 ponta de lança, flutuando no meio, com total liberdade para achar os companheiros. De ser arco e ser flecha ao mesmo tempo. O passe que ele dá para o Mbappé gerar o gol do Choupo-Moting é absurdamente bem executado. Movimento corporal, rapidez de raciocínio. Então acho que essa é a melhor versão do Neymar. Está pronto para ganhar a Champions e ser eleito o melhor do mundo. É algo que está na cabeça das pessoas há algum tempo. Esse parece o PSG mais equilibrado desde que ele chegou. Você pode falar que “o jogo contra a Atalanta foi pobre, primeiro tempo o time sofreu”. É verdade, mas precisa lembrar que não tinha Verratti, não tinha Mbappé, não tinha Di María. Marquinhos acho que foi uma escolha equivocada para fazer saída de bola, quando tinha o Paredes para fazer. Ele sofreu com a pressão do Papu Gomez, de outras figuras. Mas o time está muito competitivo. A ponto de virar a chave e não pensar mais em desmanche, vender Neymar. Agora o projeto é aumentar a força do que está lá e já é bem forte.

ENM: Mudando um pouco assunto: como você assiste a um jogo que você quer analisar taticamente?

BF: Essa pergunta é bem boa. De fato é um trabalho difícil. Vendo pela TV você fica limitado ao que o diretor de transmissão quer mostrar, então você fica junto com os cortes. Os cortes e o zoom são ruins para você ver o todo. Quando você vê os comportamentos individuais dos jogadores, você precisa saber o que que o treinador pediu. Qual é o modelo do cara, se ele fez alguma mudança específica para esse jogo. Às vezes tem comportamentos que são muito difíceis de detectar se o cara está desobedecendo, mau executando ou se de fato foi aquilo mesmo que foi pedido. É mais fácil de uma maneira geral, primeiro detectar qual o sistema tático do time com bola e sem bola. Se é 4-4-2, 4-3-3. Depende do desenho. Esse é um ponto. Você já consegue passar um panorama. Depois desse ponto é você perceber os comportamentos coletivos de cada setor. Se o time faz uma marcação alta, mais baixa, se ele ataca num ataque posicional, trabalhando a posse de bola, ou ataque direto, bola longa, ligação mais rápida. Tem termos e por isso é importante conhecer e nomenclatura para saber o que você está procurando, para aí ver a execução disso. É uma ideia de um jogo apoiado? Está sendo bem executado? Jogadores estão tendo apoio para linha de passe? Três, quatro, cinco jogadores para passar a bola? Se você tem o estilo do Guardiola, por exemplo, e cada jogador está sem opção de passe, esse estilo está sendo mau empregado. Você vai ver o Klopp, se o Liverpool não está roubando a bola no campo de ataque, naquela pressão alta que ele adora fazer e que o Jesus fazia muito bem no Flamengo, se isso não está encaixando e o adversário está saindo facilmente dessa pressão e o conseguindo construir às costas da defesa, naquele dia a coisa está sendo mal executada. E assim vai. O grande segredo é procurar comportamentos, padrões repetidos. Isso é a análise de um jogo como um todo. O improviso, a genialidade, o individual, ele vai vir em momentos sazonais. Mas o padrão… o nome já diz. Então a procura é por repetição sempre.

ENM: Te irrita ouvir as pessoas que reclamam que jornalista esportivo quer “ser técnico” ao analisar e trazer números e estatísticas das partidas?

BF: A ignorância tem dois caminhos: ou você pode reconhecer a sua ignorância e tentar buscar o conhecimento ou, já que você não consegue acompanhar, você pode tentar desvalorizar aquilo para dizer que não é importante. Então tem muito de ignorância nesse discurso. O Eduardo Cecconi, que é jornalista e durante muito tempo foi analista de desempenho do Grêmio, sempre fala que análise de jogo (análise tática) não é opinião, é informação. O desenho do time não é uma obra de arte que cada um interpreta de um jeito. É uma ideia de um treinador. E você precisa passar ela da maneira mais simples possível para quem está vendo o jogo, para que essa pessoa passe a ter uma outra experiência do que está acontecendo. Ninguém quer tirar a emoção do jogo, a individualidade, a magia, o lado social. É fundamental. A história dos vilões sempre está ali, mas existe um comportamento coletivo, uma estratégia, uma coisa pensada para que aquilo seja executado. Por isso é um esporte profissional. Se não era uma pelada de fim de semana com caras bem remunerados. É uma ilusão achar que a gente trabalha na TV para ver uma pelada, um improviso, onde todo mundo toma decisões aleatórias. Não é verdade. Eles passam a semana treinando e sendo estimulados a tomar aquelas decisões. É legal você passar para quem está em casa. É dever, aliás. Você é um facilitador. De vez em quando a gente erra. O jogo é tão fluido e dinâmico que você faz uma leitura equivocada, mas com a melhor das intenções. Essa galera que vai por esse caminho (de reclamar), que acha que o futebol não tem análise de desempenho, não tem estatísticas, está imaginando que o esporte de alto rendimento é recreação na hora da escola. Lamento, mas não é assim que funciona. Por isso eu até lancei um curso recentemente “Assista futebol como um profissional”. O nome é até meio pretensioso, mas a ideia é passar para as pessoas uma nova experiência do jogo. As pessoas podem ir além do raso, é uma opção. É igual Matrix: você toma a pílula ou não toma a pílula. Você quer ir ver o que está por trás daquilo que, de forma rasa, as pessoas te mostram? Então bora nessa. Não é curso para virar técnico, ninguém ali vai virar o Fernando Diniz, o Guardiola ou o Klopp. Mas a ideia é que essas pessoas tenham outra experiência vendo o jogo. A partir do momento que ela senta no sofá ou arquibancada, ela vai ver o jogo de uma maneira totalmente diferente que ela via antes. A ideia é essa. Acho que tem uma geração inteira vindo aí desconstruindo essas frases feitas, essa coisa bem superficial da análise. Essa coisa de botequim.

ENM: Obrigado pela entrevista, Bruno. Parabéns pela cobertura da Liga dos Campeões, por seu trabalho no Esporte Interativo e no seu canal no YouTube e até a próxima! Deixe um recado para a galera do Esporte News Mundo!

BF: Galera, eu que agradeço, de verdade, pela moral, pelo convite, pelo papo, que foi muito massa. Pela seriedade do trabalho que está sendo feito. Para quem de repente caiu de paraquedas nesta entrevista e ainda não segue a galera do Esporte News Mundo, passe a seguir! O trabalho é muito bem feito. Visualmente o site está muito legal. Tem um olhar sempre voltado do jogo pelo jogo. Vocês tem uma parada feita e bem feita. Eu sempre digo que o jornalismo não está em crise, pois nunca se produziu tanto. Você vai encontrar por aí coisa ruim ou boa. Cabe a você fazer sua própria curadoria, mas saiba que tem muita gente produzindo coisa nova e coisa massa. A notícia está aqui! Estamos juntos e um abraço!

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