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Exclusivo: Ariane Lipski fala da próxima luta, volta por cima no UFC e do início da carreira

Crédito/UFC

Ariane Lipski de fato é uma das maiores lutadoras de MMA do mundo. A curitibana já foi campeã do KSW com menos de 25 anos, entrou no UFC muito nova e agora tenta se reabilitar de dois reveses consecutivos. No meio de vitórias e derrotas, a lutadora concedeu entrevista exclusiva ao Esporte News Mundo falando de todos os detalhes de sua carreira e a preparação para a próxima luta contra Mandy Bohm neste sábado (18).

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Antes de chegar ao UFC, Ariane foi campeã do torneio KSW, sedeado na Polônia. A brasileira falou muito bem do evento, de sua estrutura e demonstrou gratidão por tudo que viveu na organização. Porém, quando perguntada qual é a diferença entre os dois eventos, Lipski disse que a exposição do UFC é muito maior.

– Então, são dois eventos completamente diferentes. Por mais que seja de MMA eles têm estilos diferentes. Até mesmo na forma que eles fazem o show de apresentação é bem diferente. Até porque o público da Polônia gosta daquele estilo, eles gostam muito do KSW! Eles gostam do estilo que KSW faz, sempre com tema nos eventos deles. Eu tive uma grande experiência no KSW que foi onde eu iniciei minha carreira internacional e tive oportunidade de lutar com atletas experientes, com atletas que tinham saído do UFC. Então eu senti que estava me preparando, fiz defesas de cinturão, tive a experiência de fazer cinco rounds que é uma experiência muito importante para o atleta – contou Ariane.

– Quando eu cheguei no UFC eu senti principalmente que a mídia mundial é muito maior, a pressão também, e por ter saído do KSW como a número 1, fui eleita a número 1 fora do UFC. Eu entrei com uma pressão muito grande no UFC, mesmo sendo nova eles me colocaram com uma lutadora com muita experiência e que estava bem ranqueada, que era Joanne Calderwood, e se eu vencesse aquela luta já tinha perguntas referentes a minha disputa de cinturão dentro do UFC. Então, eu sentia de uma maneira uma pressão muito maior do que eu tinha no KSW – completou.

Primeira parte da entrevista

Ariane Lipski foi questionada sobre qual foi a sua luta mais difícil no MMA, mas antes de falar do combate em si, a ex-campeã do KSW fez questão de comentar sobres dificuldades que a maioria dos lutadores passam antes de entrar no cage.

– Olha é complicado falar só da luta em si, porque cada luta não é só a luta em si. A luta é muito antes da gente entrar no cage. As vezes a gente tem lesões no training camp, no ano passado teve a pandemia. Nós tivemos que fazer dois training camp no Brasil com as academias fechadas, sem poder variar muito de parceiro de treino por causa da questão da Covid. Teve luta assim que eu não tinha um real, não tinha dinheiro para pegar um ônibus, tomei chuva depois do dia da pesagem. Então eu fui lá e lutei – lembrou Ariane.

– Então, cada luta é um desafio muito grande, lógico, tem lutas que eu cheguei lá e venci rápido mas teve desafio fora do cage. Recentemente, eu acredito que a minha segunda luta no UFC foi uma luta bem complicada. Eu não venci, mas o fato de eu estar lutando. Todo training camp que eu estava sentindo depois de perder minha primeira luta no UFC eu sofri muita pressão e foi uma coisa muito diferente, então, eu cresci muito! Para entrar no cage com todas as adversidades para fazer a luta. Mas o que marcou, foi minha primeira vitória no UFC. Foi umas das com mais adversidades e eu consegui sair com o resultado positivo. Era para ser uma atleta e quinze dias depois trocaram a atleta para uma atleta que era canhota e um jogo completamente diferente. chegou na quinta-feira, sexta-feira eles trocaram a atleta.

– Tipo, um dia antes da luta eles trocaram a atleta e eu estava sofrendo aquela pressão vindo de duas derrotas no UFC e aquela luta podia ser muito decisiva e eu aceitei lutar com a menina. A menina não bateu o peso, estava dois quilos acima da categoria e depois ainda descobri que ela não passou no antidoping, por isso ela perdeu contrato com UFC. Então eu lutei com ela, dopada, acima do peso, conheci de última hora, troquei três vezes de oponente e eu saí de lá e consegui a vitória, e foi tipo um alívio. Dali a gente conseguiu ficar mais tempo no UFC, já renovei meu contrato a gente conseguiu aquela luta na ilha e venci com finalização e ganhamos bônus. Então acho que essa foi uma luta que marcou bastante, uma das recentes – completou.

Crédito/UFC

A brasileira saiu recentemente da academia Rasthai e foi para America Top Team, nos Estados Unidos, para desenvolver no MMA. Ariane afirmou que o principal motivo da mudança foi a variedade de lutadoras com estilos diferentes que ATT oferece.

– No Brasil, eu treinava na Rasthai, que é equipe do meu treinador e meu marido também, nossa equipe, nosso time. Mas a gente percebeu que precisava de mais parceiras de treino, mais estilos diferentes e principalmente meu wrestling, que é o MMA, é o mix do MMA. Você tem striker, tem o jiu-jitsu, mas o  wrestling ele foi adaptado muito para o MMA. Então se você tem wrestling, você decide aonde você vai manter a luta e é uma coisa que eu realmente estava precisando. Então a gente decidiu vir para cá, o que mudou foi a diversidade de meninas no treino e estou treinando muito wrestling pro meu MMA fica mais completo. Isso que a gente veio buscar aqui – disse.

Lipski teve um início de carreira complicado. A curitibana teve que abrir mão de um emprego estável e uma vida normal para ser uma grande lutadora. Como a mesma disse, teve que lutar muito para viver da luta. Questionada como foi começar a carreira sozinha em Curitiba, a brasileira falou dos tempos difíceis da carreira.

– Sozinha, graças a Deus eu nunca tive sozinha. Deus sempre colocou as pessoas certas, mas, eu lutei bastante para poder está lutando. Eu comecei a lutar muay thai quando eu tinha 16 anos. Para minha família aquilo foi um choque, eles achavam que era uma simulação. Cheguei com o nariz sangrando, com o olho roxo. A família ficou assustada e tinha um preconceito com a luta, não era coisa de menina fazer. Mas eu gostei muito da sensação da luta, a sensação de me superar e me apaixonei pelo esporte. Fiquei três anos fazendo lutas amadoras, eu já trabalhava no escritório de advocacia. Depois comecei a trabalhar como auxiliar odontológico numa clínica, e depois, quando eu tinha 18 anos, eu tive o convite de treinar com o Renato, treinar na academia dele que já tinha um time feminino que estava focado no MMA. Foi uma época que eu não via um futuro, como eu podia viver da luta, só gostava de lutar e eu achava que tinha que ter outra profissão para manter as duas coisas ao mesmo tempo.

– Quando eu conheci o Renato, eu vi que eles já trabalhavam de um forma mais profissional, que você tinha que treinar duas ou três vezes no dia. Eles começaram a me introduzir no jiu-jitsu. Então já comecei a ver que ele lutava e dava aula, então ele vivia da luta! Ele conseguia trabalhar em tempo integral e conseguia viver da luta realmente, não tinha outro trabalho para pagar as contas ou coisas assim. Aquilo me deu esperança. Larguei meu trabalho e fui em direção ao meu sonho. Na época comecei a fazer uns bicos e trabalhar com floricultura, e estava vendo um trabalho no shopping onde eu ia conseguir conciliar meio período para conseguir treinar o suficiente.

– Apareceu a vaga de recepcionista na academia, e como eu era aluna e estava precisando de um trabalho, ele viu que eu era de confiança e ia me liberar alguns horários para conseguir fazer o treino. Ficava o dia inteiro na academia. Quando não estava treinando, estava na recepção. Isso foi muito importante porque não perdi treino e comecei dar um gás no MMA e no jiu-jitsu. Era o que eu precisava. Em menos de um ano na academia eu ganhei o campeonato brasileiro de muay thai e um mês depois tive a oportunidade no MMA profissional. Foi quando as coisas começaram a acontecer.

– Mas eu sempre tive ajuda de pessoas que tiveram no meu caminho, principalmente o Renato. Foi a pessoa que me ajudou desde o começo e em muitos momentos que eu pensei em desistir. Não é só a luta em si, é a luta fora, você não tem dinheiro. Quando saí do meu trabalho para viver da luta, as pessoas achavam que eu não queria nada da vida, só queria treinar no caso. Eles não conseguiam ver que o treino já era um trabalho, eu já estava investindo, eu já estava investindo na minha profissão. Meu treino era meu estudo e eu precisava trabalhar nos outros horários para pagar minhas contas.

– Desde muito cedo tive que começar a correr atrás, mas é exatamente por isso que eu cheguei cedo no cinturão e ser uma atleta nova que tem muita experiência. Acho que desde cedo, quando eu vi que tinha a oportunidade de viver do meu sonho, eu larguei tudo, essa aqui é minha única opção. E as coisas foram acontecendo. Tive dificuldade no caminho, mas sempre tive o apoio das pessoas que são mais importantes. Que é o Renato e algumas outras pessoas que sempre apareceram no momento certo para dar aquela forcinha, e hoje graças a Deus vivo meu sonho e posso treinar 24 horas. Dedico todo meu tempo ao meu treino, consigo descansar, consigo estudar a luta, cuido muito bem da minha alimentação.

– Coisa que antigamente não tinha suplemento, não tinha alimentação era como ia, mas na força da vontade mesmo. Mal tinha frango, as vezes era ovo para comer. Quando tinha uma proteína já estava muito bom. Então graças a Deus deu tudo certo, estamos no maior evento de MMA do mundo em busca de mais um sonho – afirmou.

Crédito/UFC

Ariane Lipski seguiu falando das dificuldades do início da carreira em Curitiba e como se desdobrava para pagar as contas e realizar seu sonho.

– Foi mais uma fase de vários perrengues. Não tinha suplemento, não tinha dinheiro para pegar ônibus, tinha que ir andando mesmo para academia. Demorava às vezes uma hora e meia. Trabalhava final de semana. Eu treinava, dava aula. Depois eu comecei a dar aula, quando me graduei tive a oportunidade de dar aula, mas não era o suficiente ainda e fazia entrega de panfleto no sábado e domingo de manhã. Acordava 5 horas da manhã nas feiras de Curitiba para entregar panfleto, fazia freelancer. Tinha momento que eu não tinha dinheiro para comprar um ovo, um leite ou um frango, que é uma coisa essencial na vida de um atleta. O Renato já tinha um patrocínio de um mercado, ele chegava e dizia “vou dar isso aqui para você, para conseguir comer de maneira mais direcionada”.

– Na época eu morava com meu avô, ele era aposentado e não tinha muito dinheiro. Então alimentação dele era diferente, ele comia uma bolacha, um arroz, não tinha uma proteína mais magra para comer. O ovo na quantidade que eu precisava não era um ovo, um atleta precisa de quatro ovos em uma refeição. Lembro que tinha uma época que o ovo estava um absurdo, quatro, cinco reais uma dúzia de ovos.

– São essas coisas que graças a Deus eu superei, eu saí da casa do meu avô e fui morar de favor na casa de uma amiga eu já ajudava um pouco, até que fui ter dinheiro e as coisas foram se ajeitando para eu morar no meu próprio apartamento de aluguel ainda, contava o dinheiro para compra o peito de frango é um início que deu certo, a gente está tendo retorno hoje! – comentou.

Veja outros pontos da entrevista

Qual foi a sensação de vencer o cinturão do KSW?

– Nossa! Foi incrível me tornar campeã mundial do KSW, um evento muito grande na Europa e polonês. Eu tenho descendência polonesa, pela minha família por parte de pai. E minha primeira luta internacional foi na Polônia no KSW, então, eu tenho carinho muito grande pelo KSW. Foi onde eu comecei minha carreira internacional e foi onde meu nome ficou conhecido mundialmente. Tive a oportunidade de lutar naquele evento com 56 mil pessoas no estádio de futebol para conquistar meu primeiro cinturão. Eu estava muito feliz por ter chegado lá, eu estava certa que eu ia vencer aquela luta. Entrei para vencer mesmo e aquela sensação de conquista foi incrível! Não consigo nem explicar a sensação que é… tudo que você passa, quando você decide ser atleta profissional de MMA. Nas falhas, nas derrotas e o que você aprende. Tudo vale a pena naquele momento da consagração que você conseguiu atingir mais um objetivo. Então, foi uma sensação incrível e eu guardo com muito carinho esse momento.

Qual o lutador ou lutadora que mais te inspirou na sua carreira?

 – O primeiro lutador que me inspirou foi o Renato, pelo fato da convivência. Eu o vi dando aula, treinando e lutando, ensinando os atletas. Eu aprendia treinando, vendo como ele fazia. Ele foi o primeiro que mostrou como fazer. E inspirou muito, sou muito fã dele e tenho a sorte de ter ele como meu treinador e ainda ser casada com ele.

– Eu me inspiro em muitos atletas, principalmente os de Curitiba. Anderson Silva, Wanderlei Silva e Shogun. Todos os campeões eu tento sempre aprender com todos eles. Não posso dizer um ou outro que me inspiraram. Até hoje me inspiram e tento aprender com todos eles. A pressão que eles superam! Essa história que eu estou contando, muitos campeões passaram por isso ou coisa pior para estar onde chegaram. Eu tento aprender com todos eles. Mas o primeiro, foi o Renato

A luta contra a Mandy Bohm foi mudada em cima da hora. Isso afetou sua preparação?

– Então, na verdade não! Porque eles avisaram com uma semana de antecedência. Até então eu não tinha começado o corte de peso mais drástico, que é o corte de peso com líquido. O que mudou foi que eu ganhei duas semanas a mais de treinos para poder continuar fazendo o que a gente já estava fazendo. Tem algumas adaptações. Eu consegui fazer sparring mais tempo. Eu aceitei essa luta com cinco semanas, se fosse na primeira data. Então, eu ganhei mais duas semanas de treino, não mudou muita coisa. Vou ter mais tempo para ficar aperfeiçoando a estratégia para luta.

Como você está mentalmente? Você busca inspiração na sua carreira na época que você estava com três derrotas e duas vitórias para conseguir dar a volta por cima?

– Exatamente. Todos os dias eu lembro que não dá para desistir e entregar nas mãos de Deus. Porque eu cheguei aqui por alguma razão. Eu acredito que não foi à toa, sei do meu potencial. Mas acredito que é um processo, que esse processo que passei e esses momentos de dificuldade, me prepararam e me fizeram crescer muito mais do que se eu tivesse feito lutas mais fáceis. Sim, poderia ter vencido, mas não cresceria tanto quanto cresci com essas últimas duas lutas, com todas as lutas do UFC na verdade, desde a minha primeira luta.

– Então, é exatamente o que eu estou buscando e minha cabeça está muito boa. Estou conseguindo ver os resultados nos treinos. Na minha última luta eu já sábia que a De La Rosa poderia me trazer um risco no grapling, porém, não treinei o tempo necessário para aplicar. Eu voltei para academia, continuei treinando, evoluindo, melhorando os detalhes e agora estou conseguindo fazer, e se isso acontecer de novo na luta, eu vou ter as reações certas. Então, é isso, eu acredito no meu processo. Não dá para ficar comparando uma atleta com a outra, a história de cada uma e o tempo de cada um. Cada um tem sua história, seu momento e seu desafio a ser vencido. Estou vencendo os meus da melhor maneira que eu posso.

Você acha que essa luta é a luta do divisor de águas?

– Sim, acredito! Estou muito confiante para essa luta e acredito que é questão de tempo até que meu jogo fique sólido o suficiente para que eu posso voltar a olhar para as Tops 10 da minha divisão. Então, eu preciso desse tempo necessário de aprendizado e acredito que essa luta contra a Mandy Bohm veio nesse momento certo. Por esse uma striker e poder usar o meu striker também, mostrar como eu to evoluindo no meu jogo de grapling e no meu MMA. Então é questão de tempo para que eu tenha meu jogo bem sólido para enfrentar qualquer uma da divisão

Você é uma lutadora muito explosiva, nunca pensou em ser mais pragmática ou você gosta de ser assim?

– Gosto de ser assim, cada vez mais eu tenho que aprender a controlar e usar o momento certo para usar essa explosão. Tudo na luta é a reação certa no momento certo. É isso que estou olhando. O momento certo para usar minha explosão, o momento certo para usar os golpes e isso só vem com experiência e eu estou tendo as experiências necessárias para aprender isso.

Já está com a estratégia alinhada para luta?

– Já. Eu sou striker, minha estratégia é essa, é chegar lá e meter a porrada. Mas isso é como eu falei, é trabalhar meu jogo de MMA. O que a gente veio buscar, mais do que estratégia para luta, é como impor o meu jogo em cada luta. Para isso tenho que ficar preparada para todas as situações.

Sofreu algum tipo de assédio no início da carreira?

– Nunca tive problema com isso, porque eu estive em duas academias. A academia de bairro que eu treinava no início, que era dentro de uma academia de musculação, era voltada para praticante mesmo. E quando decidir ser profissional, eu entrei numa equipe profissional onde já tinha muitas meninas, todo mundo me tratou com respeito. Então, graças a Deus nunca tive problema. Sei que acontece em muitas academias, acredito, posso estar falando errado, mas principalmente em academias menores do interior. Acontece pela falta de acesso a outras academias, mas nunca aconteceu nada comigo desse tipo.

Como está sendo seu relacionamento com as outras lutadoras da ATT?

– Fui recebida muito bem, desde o início fui recebida muito bem! Não tem o que falar, o pessoal lá é muito profissional, muitas meninas boas de altíssimo nível treinando juntas. Vários estilos diferentes, não tem o que falar, só gratidão pelas pessoas que estão próximas. Eu vejo que as pessoas se aproximam querendo me ajudar de alguma maneira e fui muito bem recebida pelas meninas.

Já tem uma rival que queira enfrentar?

– Eu não sou atleta para dizer não para um desafio, desde o início tem atletas duríssimas sempre acreditando na vitória, sempre entrando confiante que eu poderia vencer a luta. Mas no momento eu estou mais focada no meu crescimento técnico e deixar meu jogo bem sólido, e depois que eu sentir que eu estou preparada, qualquer uma que o UFC falar eu vou dizer: Pode vir!    

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