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Mulheres no e-sports, a contínua luta por aceitação

Pamela Mosquer, fundadora da Valkirias e Nat1, da Gamelanders Purple, falam da inserção das mulheres no e-sports

O cenário de e-sports vem alçando patamares nos últimos anos. Mais times surgem a cada dia, além das equipes de outras modalidades que têm se adaptado aos jogos online, caso de Corinthians e Flamengo, por exemplo, que competem nos cenários de Free Fire, PES e League of Legends (LoL).

Mesmo com o claro investimento das marcas no universo dos esportes eletrônicos, nota-se ainda uma defasagem quando o assunto é mulheres inseridas nas grandes competições de e-sports. Essa falta, todavia, não é dada pelo não interesse desse público, mas sim pela escassez de investimento e credibilidade.

A predominância masculina é gritante, principalmente no cenário competitivo, desde os campeonatos amadores, e ainda mais nas competições profissionais. O torneio internacional de LoL, Mid Season Invitational (MSI), foi criado em 2015 pela empresa desenvolvedora do jogo, Riot Games, porém só teve a participação da primeira mulher em 2021, pela equipe australiana Pentanet.GG. Porém, a jogadora Diana “DSN” Nguyen, é suporte reserva, ou seja, apesar de inscrita poderia nem jogar. 

A tese da falta de engajamento do público feminino para aqueles que não estão inseridos no cenário dos jogos online é derrotada quando analisa-se os dados. O levantamento realizado em 2018 pela Pesquisa Game Brasil mostra que 58% dos gamers brasileiros são mulheres. Um estudo mais antigo, de 2014, realizado pela Entertainment Software Association, colocou as mulheres adultas no topo da demografia de toda a indústria dos jogos. 

Um dos fatores que parecem dificultar a inserção das mulheres nesse mercado é o machismo impregnado na maioria dos campos da sociedade. A única mulher da Overwatch League, “Geguri”, jogadora profissional pela equipe Shangai Dragons, já foi acusada nos servidores de usar cheats e aim hacks (softwares que “roubam” no jogo, facilitando a mira). Os principais ataques eram de cunho sexista, relacionados ao gênero. Mesmo assim, “Geguri” não se abateu e foi nomeada pela revista americana TIME como uma “Next Generation Leader”, em 2019. Esta nomeação reconhece personalidades que se destacam e apresentam diferenciais em diversos meios, podendo representar caminhos de mudança para as futuras gerações. 

Foto: Robert Paul/Blizzard

“Geguri” é um exemplo do que sofrem as mulheres que se destacam no cenário. Figura conhecida no meio, apesar de ser parte de um importante da Coréia, a jogadora não se livra dos comentários e ofensas. Imagine o ambiente para jogadoras de nível amador, que não vestem camisas de peso.

Aline Silva participa de um grupo sobre o jogo Valorant, no Facebook, que aceita somente mulheres. Os relatos citam o ambiente tóxico do jogo. Aline conta de uma partida recente em que foi altamente ofendida e alvo de denúncias. Por causa disso, acabou optando por deixar a partida. O que era para ser um momento de lazer, acabou se tornando o contrário. E essa é a realidade de muitas outras.

A luta por inclusão

Com tantas dificuldades enfrentadas pelas mulheres para serem inseridas no mundo dos e-sports ou ao menos serem respeitadas durante os jogos, algumas delas se reuniram e formaram coletivos que auxiliam as mulheres nesse universo. Grupos como a Valkiquirias E-sports e a Sakuras Esports são organizações importantes que lutam pela inclusão e combatem a desigualdade de gênero dentro do universo gamer.

A Valkirias E-sports, criada em 2019 e que a princípio era o Projeto Valkirias, treina e prepara mulheres para o cenário feminino de forma gratuita. O projeto foi criado por Pamela Mosquer, atual influencer do Fla Esports. 

— Eu tracei um longo caminho até aqui, tive meu primeiro contato com jogos na época do cursinho (para medicina), com o LoL. Diferente da maioria das pessoas, principalmente dos meninos que têm contato com videogame desde cedo.

Valkirias anuncia nova equipe de Valorant
Foto: reprodução/Valkirias

Mosquer se empenhou muito para ser treinadora, principalmente após perceber a falta de mulheres ocupando este cargo. Ainda assim, sofreu muitos problemas após chegar onde tanto almejava.

— Eu consegui uma chance num time masculino, eu já tinha tido entrevista com time feminino, mas eu não quis pegar time feminino porque todo mundo acha que se você é mulher só pode trabalhar com mulher, e eu não queria fazer isso. Queria que fosse “existe uma coach que é mulher”, e aí comecei a estudar e fiquei um tempo nessa organização comendo o pão que o diabo amassou, porque todo mundo acha que mulher não entende de jogo e os alguns players também pensam isso, seja você head coach ou não. 

O Projeto Valkirias surgiu justamente após esse período. Pamela afirma que havia estudado bastante e não queria jogar esse conhecimento fora. Tudo começou com uma amiga aspirante a pro player que não tinha muito tempo para treinar. Assim, Pamela se ofereceu para dar coach de forma gratuita, aumentando a qualidade de pratica da amiga em períodos mais curtos. Dessa forma, imaginou que deveria existir muita outras na mesma situação.

Recentemente as Valkirias mudaram de formato a modo de entrarem efetivamente no cenário, assim sendo,  a organização visa impactar as interessadas de uma forma mais incisiva. Anteriormente, a agora organização era um projeto voluntário que oferecia aulas para meninas interessadas em esportes eletrônicos, agora as Valkirias possuem times competitivos, streamers e o Talents, que é composto por aulas de streamers, além de workshops 

Outro projeto que visa o cenário feminino é a Sakuras Esports uma organização criada em 2018, em seu site elas se denominam um grupo cujo principal foco é trazer visibilidade, fomentar a competitividade e estimular a união entre as mulheres da comunidade gamer. A Sakuras é responsável por organizar campeonatos exclusivamente feminino, o Sakuras Ascent, que já teve o seu primeiro ato neste ano, e ainda terá mais três durante 2021. 

Outros projetos que envolvem a organização é a Sakuras Atena, que auxilia mulheres do cenário competitivo e casual, oferecendo apoio psicológico, jurídico, fisioterapêutico, entre outros, tudo de maneira gratuita. Além do projeto Atena, a organização também tem o projeto Monarca, esta iniciativa visa trazer mais oportunidade para a profissionalização na área de e-sports.

Riot Games investe no cenário feminino de Valorant

O cenário feminino de Valorant vem recebendo uma certa atenção da Riot Games, empresa desenvolvedora do jogo, com o VCT Game Changers, um programa para completar a temporada competitiva. O projeto visa criar novas oportunidades e mais espaços para mulheres no cenário de Valorant. Por meio da Game Changers, a Riot espera criar um Valorant Champions Tour mais inclusivo, representando melhor a comunidade.

No Brasil a Game Changers terá duas edições em 2021, cada uma delas com quatro qualificatórias abertas. Além disso, a Riot também apoia 10 campeonatos independentes, exclusivo para equipes femininas, entre eles a Rivals Women’s Cup, que teve como ganhadora a Gamelanders Purple, equipe que vem se destacando cada vez mais no cenário, ganhando todas as competições que participa. 

Mesmo com o alto índice de apoio da Riot Games em seu jogo de FPS, nenhuma das equipes principais possui mulheres em sua equipe. Inclusive, uma das principais organizações do cenário masculino, Team Vikings, se desfez do time feminino, não renovando o contrato com as jogadoras que estavam desde outubro compondo a equipe

Por outro lado a Gamelanders que possui grande destaque tanto no cenário masculino como no feminino, não aparenta querer se desfazer da sua equipe, a GL Purple. Só em 2021 a equipe já levantou oito troféus, sendo eles: Rivals Women’s Cup #3; Protocolo Gêneses – qualificatória #1, 2, 3 e 4; Sakura Ascent – ato 1, Gaming Culture Girl Pwr #2 e o VCT Game Changers Séries.

Para o Diretor de Novos Negócios da Final Level e um dos responsáveis pela gestão da Gamelanders Purple, Gabriel Duarte, as premiações são um dos fatores que não tornam o cenário feminino tão atrativo.

— Uma das questões desse momento é que as premiações não são tão atrativas para mais organizações entrarem. E também acho que precisamos de mais janelas de visibilidade, para que mais meninas possam jogar dentro do cenário feminino. 

A jogadora da Gamelanders Purple, Natalia Meneses, Nat1, comenta que cada organização tem seu motivo para finalizar a line-up, mas que muitas acabam tendo problemas de convivência inicialmente e ao darem de cara com os prêmios baixos acabam se desmotivando ainda mais.

Foto: reprodução/Gamelanders

Todavia, este não é um problema enfrentado por uma das maiores organizações femininas, a Gamelanders Purple, como citado acima vem apresentando ótimos resultados nos campeonatos que participam. Sendo impulsionadas cada vez mais a continuar efetuando o trabalho da melhor forma.

Para ficar de olho!

A Riot Games está investindo forte no cenário feminino de Valorant, o Protocolo Gêneses selecionou oito equipes para participarem do VCT Game Changers Series, que teve um prêmio total de R$ 100 mil. A equipe vencedora foi a Gamelanders Purple. Outro campeonato do FPS da Riot Games é a Sakuras Ascent, o primeiro ato aconteceu em abril, mas ainda vai ocorrer mais três atos ainda em 2021.  Além disso, o Protocolo Evolução está com inscrições abertas para a segunda qualificatória, o campeonato leva as oito primeiras colocadas ao VCT Game Changers Series.

No cenário feminino de Free Fire, Camila “CamilitaXP” é uma das investidoras, o CampLota já está indo para terceira edição e está com inscrições abertas. A segunda edição aconteceu neste ano e as 12 melhores equipes disputaram o prêmio de 50 mil diamantes e os R$ 56 mil em prêmios.

O PES das Minas é um torneio exclusivo para as mulheres e está com inscrições abertas, a competição é organizada pela Player1 e pela Konami, empresa desenvolvedora do jogo de futebol. As plataformas de disputa são Xbox One, PlayStation 4 e Mobile.

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