Finalizada a primeira edição do novo formato da Copa do Mundo de Clubes, que reuniu 32 equipes de todos os continentes, é tempo de análise e reflexão, após semanas de debate, sobre especialmente o nível dos sul-americanos e dos europeus.
Por exemplo, antes do começo da Copa do Mundo, o site de previsões de futebol do Wincomparator via somente equipes europeias nas semifinais da competição. Somente o Fluminense (talvez aquele representante sul-americano que menos esperaríamos), conseguiu contrariar essa previsão.
Com um formato bastante semelhante à Copa do Mundo por Seleções, também aqui havia limites de vagas por continente. Contudo, nesta nova competição, algumas das equipes presentes não representavam, de fato, as melhores de seus respectivos continentes.
As limitações e impactos no nível competitivo dos critérios de classificação
No caso da América do Sul, essa não foi uma realidade, uma vez que os clubes presentes representavam de fato os mais fortes da região, com 4 equipes brasileiras e 2 argentinas. Já na Europa, isso não aconteceu por dois motivos principais.
O primeiro é o fato de haver um limite de dois clubes por país. Se, por um lado, essa regra é compreensível para garantir uma maior representatividade geográfica, por outro, acaba gerando injustiças e enfraquecendo o nível técnico das equipes europeias presentes.
O exemplo mais evidente foi o do Liverpool, 8º colocado do ranking da UEFA e uma das melhores equipes do mundo nas últimas temporadas, que ficou de fora por conta de outros dois times ingleses terem vencido a Liga dos Campeões durante o período tido em conta para as classificações (2021–2024). Com isso, a vaga foi para o Red Bull Salzburg, uma equipe com nível competitivo muito inferior.
O segundo motivo está no próprio período de classificação, que abrange quatro anos. Ao contrário do que acontece nas seleções, onde a classificação para a Copa do Mundo termina poucos meses antes do torneio, garantindo maior confiabilidade em relação ao momento atual das equipes, neste caso vemos mais facilmente situações desalinhadas da realidade.
Casos como o Barcelona e o Bayer Leverkusen, em clara ascensão nos últimos tempos, ficaram de fora, enquanto outros como Atlético de Madrid ou Borussia Dortmund – que hoje estão em um nível inferior – foram beneficiados pela consistência demonstrada durante o período de classificação.
Europa x Brasil: o confronto de números e resultados
Dias após o termo dessa primeira edição com esse novo formato alargado, talvez seja o momento ideal para analisar, com frieza e baseando-se em dados e fatos concretos, a diferença real entre o futebol europeu e o futebol brasileiro.
Assim como acontece na Copa do Mundo de Seleções, que por ter grande visibilidade e alcance global origina muitas vezes análises precipitadas. Especialmente sobre a qualidade de jogadores e equipes, baseadas em meia dúzia de jogos.
E se no passado vimos jogadores nitidamente supervalorizados por boas atuações na Copa do Mundo, como James Rodríguez ou Guillermo Ochoa, também nesta edição assistimos ao mesmo fenômeno com os clubes brasileiros na fase de grupos.
Convém sublinhar que, com todo o mérito, as 4 equipes brasileiras se classificaram para o mata-mata, com um registro de 2 vitórias, 2 empates e 0 derrotas contra equipes europeias. Isso gerou um entusiasmo natural, mas também uma narrativa triunfalista e uma euforia desproporcional, colocando-as no mesmo patamar das melhores equipes europeias.
No entanto, à medida que a competição avançou, ficou claro que esse entusiasmo foi precoce diante das dificuldades nos confrontos eliminatórios contra times europeus, nos quais o saldo total foi de 1 vitória e 3 derrotas. Ficou, assim, evidente que, quando o nível de exigência aumentou, a diferença ficou exposta.
Assim como no antigo formato da Copa do Mundo de Clubes, é preciso voltar a 2012 para encontrar a última vez que um clube brasileiro venceu um europeu e se sagrou campeão mundial.
A ilusão que impede o progresso
A insistência em tentar equiparar o futebol brasileiro ao topo do futebol europeu não só distorce a realidade, como prejudica o próprio futebol nacional. Em vez de promover uma discussão honesta e crítica sobre o real nível do futebol brasileiro no cenário internacional, cria-se uma ilusão que apenas alimenta falsas expectativas.
Isso desvia o foco dos problemas reais do futebol brasileiro, como a instabilidade técnica, a má gestão financeira e a formação desequilibrada de jogadores, apesar do enorme talento que o país continua a produzir.
Durante a Copa de Clubes, os motivos que explicaram essa diferença foram muitos, como questões climatéricas, presença ou não da torcida, etc., de ambos os lados.
No entanto, tudo não passa de desculpas ou de justificações sem grande fundamento, na hora de explicar tanto os triunfos quanto os fracassos. No fundo, a diferença econômica e sobre tudo tática, continuam sendo os principais argumentos. Afinal, o Brasil não ganhar uma Copa do Mundo enquanto seleção desde 2002, ficando parado no tempo.
Outra prova disso é o sucesso que certos técnicos europeus têm conseguido no Brasil, nomeadamente os técnicos portugueses. São fatos e contra eles, não há argumentos… Falando nessa questão, sim, aquele FC Porto que se apresentou diante do Palmeiras foi dos piores desde muitos anos.
Os Dragões nunca finalizaram o campeonato português fora do G2 desde 2015/2016. Outro fato… Reforçando isso, isso somente aconteceu 8 vezes ao FC Porto nos últimos 50 anos. Apenas para fechar outra das parenteses que também gerou demasiados debates nessas semanas de competição.
Reconhecer para evoluir
Essa realidade, a CBF acabou por a reconhecer também, como podemos ver com a nominação do técnico italiano, Carlo Ancelotti, como novo selecionador da seleção brasileira. Apesar da desilusão de milhões de brasileiros, por não ter mais um técnico brasileiro na frente da auriverde, esse talvez seja um passo importante rumo à evolução do futebol brasileiro.
Apesar dos desafios, o Brasil continua tendo uma capacidade quase inesgotável de produzir talentos e essa sempre será a base do nosso futebol. No entanto, esse atributo sozinho já não é suficiente no futebol moderno, que requer muita mais disciplina e comprometimento tático.
Reconhecer que o Brasil já não domina o futebol como no passado não é um ataque ao futebol brasileiro, é sim um passo essencial para retornar ao topo. O caminho passa pela modernização, estabilidade e humildade de todos os elementos envolvidos, incluindo os torcedores.