Academias, escolas esportivas, assessorias, organizadores de eventos e outros negócios ligados ao esporte terão de incorporar novas variáveis ao planejamento financeiro para 2027.
A implementação da Reforma Tributária sobre o Consumo coloca fatores como peso da folha de pagamento, receitas com mensalidades, despesas com fornecedores, perfil dos clientes e possibilidade de aproveitamento de créditos no centro das projeções para o próximo ano.
Uma das decisões envolve empresas optantes pelo Simples Nacional, que poderão manter o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) dentro do regime simplificado ou optar pela apuração regular dos dois tributos, fora do DAS. Para que a escolha produza efeitos no primeiro semestre de 2027, a manifestação precisa ser realizada até quarta-feira (30).
A transição seguirá nos próximos anos. Em 2027, PIS e Cofins serão extintos, a CBS passa a ser cobrada e o IBS inicia sua implementação; entre 2029 e 2032 ocorre a substituição gradual de ICMS e ISS pelo IBS, até a vigência integral do novo modelo em 2033.
Para um setor que movimenta mais de R$ 180 bilhões por ano, a reforma deixa, portanto, de ser apenas uma discussão tributária e passa a fazer parte do planejamento de custos, contratos e investimentos das empresas ligadas ao esporte.
A conta pode variar de forma significativa dentro do próprio mercado esportivo. Uma academia cuja receita vem principalmente das mensalidades pagas por pessoas físicas possui características diferentes de uma empresa que presta serviços para clubes, federações, patrocinadores ou outras pessoas jurídicas. O mesmo ocorre com escolas esportivas, assessorias, produtores de eventos e empresas que trabalham com diferentes estruturas de contratação e fornecedores. “A preparação começa com uma simulação do negócio real. A escolha tributária do concorrente pode ser inadequada para a sua academia”, afirma Anderson Diogenes Pavanello, CEO do Meu Contador Online.
A possibilidade de utilização de créditos de IBS e CBS é um dos pontos que ganham relevância principalmente nas relações entre empresas. Dependendo da estrutura de custos e da posição ocupada pelo negócio na cadeia, o tratamento desses créditos pode interferir na formação dos preços e nas negociações comerciais. “Crédito tributário pode reduzir imposto, mas não deve ser confundido com dinheiro imediatamente disponível para pagar a folha”, explica Anderson Diogenes Pavanello.
No esporte, a folha pode representar parcela importante das despesas de negócios que dependem de professores, treinadores, profissionais de atendimento e equipes administrativas. Ao mesmo tempo, existem operações com gastos em locação, equipamentos, tecnologia, fornecedores e prestação de serviços. A combinação dessas despesas precisa ser considerada individualmente nas simulações.
A folha de pagamento também coloca a contratação de profissionais entre as decisões que precisam ser consideradas no planejamento. No mercado esportivo, professores, treinadores, profissionais de atendimento e equipes administrativas têm participação direta na prestação do serviço e na relação com os alunos e clientes.
“Quando falamos de academias e clubes esportivos, é muito fácil olhar para estrutura, equipamentos e serviços como os principais fatores de experiência. Mas existe algo antes disso: quem entrega essa experiência são as pessoas. Um colaborador que se sente valorizado, preparado e conectado à cultura da organização tende a atender melhor, criar vínculos e cuidar mais de quem está do outro lado. No fim, investir na experiência do colaborador não é apenas uma questão de gestão de pessoas. É uma decisão que impacta a experiência do cliente, a retenção e a performance do negócio”, afirma Gabriel Polisandro Sowmy, porta-voz da NPW.
Outro ponto é o fluxo de caixa. Negócios baseados em mensalidades ou receitas recorrentes precisam observar não apenas o valor projetado dos tributos, mas também o momento em que recebem dos clientes e quando precisam pagar funcionários, fornecedores e demais despesas.
A análise também pode chegar ao preço cobrado do consumidor. Dependendo do impacto das novas regras sobre custos e margens, empresas terão de avaliar seus planejamentos para contratação, investimentos e formação de preços para 2027.
Além da escolha relacionada ao IBS e à CBS, setembro traz outra mudança para pequenos negócios. Empresas atualmente fora do Simples Nacional que pretendem ingressar no regime em 2027 precisam realizar a solicitação até o fim do mês. Quem já está enquadrado não precisa fazer uma nova opção para permanecer, salvo situações específicas.
Para Anderson Diogenes Pavanello, a quantidade de variáveis envolvidas aumenta a importância da análise individual da operação antes de qualquer decisão. “O pequeno empresário normalmente conhece muito bem o próprio negócio, mas não necessariamente precisa conhecer profundamente contabilidade, tributação e legislação. O papel do contador é fazer essa tradução e permitir que ele tome decisões com segurança. E acredito que a Reforma Tributária vai ampliar muito essa necessidade.”
O impacto das mudanças tributárias ganha dimensão quando observado o tamanho da cadeia esportiva. Segundo o estudo PIB do Esporte Brasileiro, realizado pela EY para o Instituto Sou do Esporte, o setor movimentou R$ 183,4 bilhões em 2023, o equivalente a 1,69% do PIB brasileiro, e respondeu por 3,3 milhões de empregos formais diretos.
Comércio de artigos esportivos representou 52% da atividade econômica medida pelo levantamento, seguido pelas atividades recreativas, com 25%, indústria, com 13%, e mídia e publicidade, com 7%.
