Coritiba

Um ano das Gurias do Couto: união das mulheres por amor ao Coritiba

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No dia 4 de agosto, as Gurias do Couto completam um ano de vida. Foto: Arquivo pessoal
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POR BRENO ANTUNES E GIULIA MAIA

União, companheirismo e liberdade. Essas são as três palavras que vêm à mente de Natália Oliveira, Carolina Souza e Mariana Toneti, quando descrevem o projeto “Gurias do Couto”. Completando um ano nesta terça-feira (04), a iniciativa já reuniu diversas torcedoras do Coritiba para participarem de jogos no Couto Pereira, churrascos e encontros, com o objetivo de fortalecer o movimento feminino nos estádios e acolher todas as mulheres que compartilham a paixão pelo futebol.

— O projeto começou com um grupo no Whatsapp que eu criei depois de uma notícia de que uma menina foi assediada dentro do Couto. Precisávamos nos mobilizar, porque se só uma falar nós não temos muita voz. Se existisse um grupo assim na nossa torcida, esse episódio poderia ter uma repercussão maior – comentou Natália.

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O movimento ganhou proporções cada vez maiores. Muitas mulheres começaram a entrar no grupo, e a procura acontece até hoje. O projeto conta com cinco administradoras – Natália Oliveira, Paula Rocha, Mariana Toneti, Carolina Souza e Giuliana Souza – e 202 mulheres no grupo do Whatsapp, além de mais de 4.000 seguidores no Instagram e cerca de 1.230 no Twitter. 

As meninas começaram a se reunir para prestigiar o Coritiba. Foto: Arquivo pessoal

No ano de 2019, as Gurias do Couto focaram a atenção no clube de coração, e na realização de eventos que pudessem trazer mais mulheres para a iniciativa. — Tentamos trazer as meninas para o jogo, nos reunir para ver os jogos fora de casa. A gente estava se planejando para viajar, ver formas de assistir o Coxa em outros lugares do país – explicou Carolina.

MUDANÇAS NO CONVÍVIO

Ao longo do tempo, as meninas começaram a ver como o projeto estava crescendo. Em uma noite de quinta-feira, com o típico frio curitibano no ar, surgiu a ideia de reunir as mulheres do grupo para assistir à partida do RB Bragantino contra o Coritiba, que acontecia em São Paulo. O projeto tinha menos de um mês, mas para a surpresa das administradoras, cerca de 30 mulheres apareceram para acompanhar o jogo.

— Foi o momento que eu vi como o que nós fazíamos era legal. Eu nunca tinha feito isso,  igual os homens fazem mesmo, de se juntar com os amigos e ir num bar assistir o jogo num dia de semana. Foi ali que eu vi que era isso que eu queria que o Gurias do Couto fosse. Um lugar para que as meninas fossem acolhidas para assistir um jogo, gostar de futebol – disse Carol.

As Gurias do Couto seguem crescendo em número, e em amor pelo clube. Foto: Instagram/Gurias do Couto

A confiança também foi um fator positivamente afetado pela união das mulheres em prol do Coritiba. Em um clássico entre Paraná e o time alviverde, Mariana percebeu como a sua relação e de seus familiares mudou após a criação do coletivo. Ao comentar que ia no jogo, sua mãe ficou irritada ao saber que ela estaria acompanhada apenas por homens, mas esse cenário mudou.

— Muitas das meninas que estão no grupo viram que não tínhamos companhia pra ir no jogo, e que muitas vezes a família tinha medo que fossem sozinhas. O movimento ajudou bastante nisso. Hoje em dia, minha mãe nem liga mais. Eu falo que vou com as gurias e ela deixa ir. Existem muito mais meninas querendo participar e saber mais de futebol – conta Mariana.

A percepção pelo projeto foi muito além das questões individuais. A partir do convívio com práticas consideradas pouco usuais, as meninas entenderam que não se trata apenas de companheirismo e amor pelo time: a união das Gurias do Couto levantou questões inerentes ao machismo, mesmo que enrustido, em situações do dia-a-dia.

— Achávamos que era uma coisa que fazíamos pelas outras, mas eu também não ia jogar bola, ou ia num bar. São situações que te colocam cara a cara com coisas que você nunca fez. Muitas meninas falavam que não iam nos jogos porque não tinham companhia, e um dia, lá atrás, eu também não tive. Hoje vemos a importância disso para as meninas que estão começando a gostar do esporte, e querem uma liberdade que sabemos que é diferente para meninos e meninas – afirma Natália.

GURIAS DO COUTO E A TORCIDA

As meninas achavam que fosse existir resistência pela criação do projeto, mas para a surpresa das criadoras, a torcida e o clube viram com bons olhos a iniciativa.

No texto de apresentação do Gurias do Couto, as criadoras esperavam muito mais críticas do que realmente receberam. A recepção da torcida chegou a assustar as meninas, que nos três primeiros dias de projeto já tinham 1000 seguidores. A torcida entendeu o propósito do grupo e reconheceu a causa pela qual lutavam.

As Gurias firmaram parcerias com páginas relacionadas ao Coritiba, foram divulgadas por outros portais e receberam um grande apoio no meio digital. Com relação às Torcidas Organizadas, as meninas reforçam que a intenção é conversar sobre parcerias e ações conjuntas.

— A gente sabe que tem muitas mulheres que fazem parte da Torcida Organizada, que dedicam a vida naquilo, e já que o nosso propósito é união, a gente busca o contato. Ainda não tivemos muito tempo para trabalhar nisso, mas como a gente não viu nenhuma resistência com relação à nós, eu acho que pode ser construído algo legal. Tentamos sempre deixar claro que não somos uma Torcida Organizada – explica Natália.

INSPIRAÇÕES

Todos os times da capital possuem movimentos de torcida feminina. O grupo mais antigo é o das Atleticaníssimas, que surgiu há 4 anos, e estimulou a criação de projetos com o mesmo propósito. — Elas nos inspiram bastante, e era até provocador, pensando que o nosso rival já tinha um grupo há tempos e o Coritiba não – explicou Carol. 

O grupo mais recente, relacionado ao Paraná Clube, se chama Gralhas da Vila. Os movimentos femininos da capital se apoiam e procuram fazer parcerias, deixando a rivalidade de lado e focando na causa maior, a valorização das mulheres nos estádios e no mundo do futebol.

PRÓXIMOS PASSOS

Os próximos passos são relacionados ao aprofundamento de assuntos ligados à questão de gênero e abordagens sociais, como a ação voluntária em institutos que ajudam as mulheres em casos de violência. No final do mês de agosto, os três movimentos femininos da capital – Gurias do Couto, Atleticaníssimas e Gralhas da Vila – irão promover uma série de lives voltadas à psicologia, analisando temas como relacionamento abusivo, por exemplo.

Além da torcida pelo Coritiba, as meninas pretendem dar mais visibilidade ao Coritiba/Toledo, time feminino em parceria entre os dois clubes. 

O ambiente dos estádios evolui não só para as torcedoras, mas também para as profissionais que trabalham na realização e cobertura da partida.

— Quando tinha alguma bandeirinha mulher, todo mundo ficava encantado como se fosse algo absurdo. Com a presença de mulheres no estádio, vejo que a situação melhorou um pouco. Tem muito pra evoluir e aprender, mas está ajudando bastante – diz Mariana.

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