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Itália: do ostracismo das seleções à returno triunfal

Itália
Foto: Nick Potts via Imago Images

A última década para a seleção italiana de futebol foi marcada por feridas duras e vexames homéricos. Após defender o título do mundial de 2006 na África do Sul de forma vergonhosa e cair novamente na fase de grupos na Copa de 2014 no Brasil, a Itália chegou ao fundo do poço em 2017, quando ficou de fora do mundial da Rússia, após derrota para a Suécia no agregado da repescagem.

A troca do comando técnico foi o primeiro passo dado rumo ao renascimento da Azzurra. Quando Roberto Mancini assumiu a seleção italiana, viu uma equipe despedaçada e esfacelada por conta do fracasso nas eliminatórias. Sem mencionar o peso carregado das humilhações do começo da década, incluindo um acachapante revés numa decisão de Eurocopa para a Espanha, em 2012. A primeira mudança a ser implementada era a filosofia de trabalho e estilo de jogo.

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Em campo, uma nova ideia. Uma nova forma de se pensar futebol. Com os mesmos jogadores, com nomes de qualidade. A ideia de Mancini é buscar a ofensividade. No entanto, em uma escola criada e moldada por grandes defesas e que sempre prezou a tática defensiva, implementar a mudança era praticamente uma quebra de paradigma. É quase que como romper um laço. Não foi fácil, mas deu certo. E como deu certo.

Traduzindo para os números da forma mais direta possível: a Itália de Mancini não é derrotada há quase três anos (!). Ao todo, são 34 partidas de invencibilidade, com 27 vitórias e sete empates. O último revés da Azzurra foi no dia 10 de setembro de 2018, para Portugal, em jogo válido pela Liga das Nações. É a terceira maior invencibilidade de todos os tempos envolvendo seleções. Acima da Itália, estão a Espanha, que ficou invicta entre fevereiro de 2007 e junho de 2009 e o Brasil, que não perdeu entre dezembro de 1993 e janeiro de 1996.

Nesta Eurocopa, a seleção italiana implementou sua filosofia desde o início da campanha até a último minuto da decisão em Wembley. Jogando em um 4-2-3-1 que priorizava a posse de bola, a Itália de Mancini dominou praticamente todos os seus adversários durante a disputa do torneio. Verratti e Jorginho, jogadores de passe qualificado, organizavam a saída: o ítalo-brasileiro do Chelsea saía com a bola de trás junto com a dupla de zaga e o meia do PSG era o elo entre ataque e defesa, fazendo o pêndulo durante a transição.

E não só de organização estratégica vivia a Itália, ora porque não contar com o brilho individual? Federico Chiesa, jogador da Juventus, ajudou a equipe em momentos de dificuldade durante os jogos com jogadas solo. O camisa 14 foi o ponto de desequilíbrio da Azzurra e fez uma grande Euro, assim como o jovem goleiro Gianluigi Donnarumma, tido como o herdeiro de seu xará Gianluigi Buffon, um dos maiores arqueiros da história do esporte.

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Spinazzola, tido por muitos como o grande nome da seleção italiana na Euro, era fundamental nas subidas pelo flanco esquerdo, apoiando o camisa 10 Insigne. A movimentação dos dois era de complementação: o ponta do Napoli ia por dentro, seja para criar ou para finalizar, enquanto Spinazzola dava amplitude ao campo com ultrapassagens e jogadas de fundo. No entanto, a lesão do lateral da Roma durante o jogo das quartas de final contra a Bélgica o tirou da Euro e Mancini teve de promover a entrada de Emerson Palmieri no time.

No entanto, a filosofia manteve-se intacta. Talvez a única ressalva fora no duelo da semifinal contra a Espanha, que domina a escola do jogo trabalhado na posse há tempos. Porém, a partida foi marcada pela intensidade e pela velocidade na troca de passes de ambos os times. Mas por conta do volume da Fúria ter aumentado e pela ausência de Spinazzola no desafogo, a Itália emulou as gerações passadas do jogo defensivo por momentos da partida. A classificação para a final veio nos pênaltis.

Em Wembley, no último domingo, a consagração do trabalho e da renovação fora devidamente recompensada com o título da Euro 2020 contra os donos da casa, os ingleses. A Itália levou um susto logo nos primeiros dois minutos com o gol de Luke Shaw. Mas após por a cabeça no lugar, a equipe de Mancini pôs em prática seu modus operandi de jogar futebol. Com o empate conquistado no segundo tempo, já sabemos o que aconteceu na disputa por pênaltis. E esse é o motivo desta ode ao futebol italiano, que fora bastante ferido nos últimos anos.

O bicampeonato da Eurocopa foi como um aviso à todas as seleções do mundo de que o gigante adormecido, que parecia até mesmo morto, está de volta, da forma mais contundente possível. A conquista do torneio europeu não foi um lampejo, foi uma sinalização de que a Itália tetracampeã do mundo, a Azzurra, voltou para ficar.

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