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Os erros de Abel e os acertos de Ferretti: porque o Palmeiras foi eliminado na semifinal do Mundial?

Abel Ferreira, treinador do Palmeiras (esquerda) e Tuca Ferretti, treinador do Tigres (direita); (Fotos: Cesar Greco/PALMEIRAS e Tigres/Reprodução)

Tuca Ferretti, brasileiro que há 10 anos comanda o Tigres do México, havia dito, depois de eliminar o Ulsan Hyundai nas quartas-de-final, que sabia muito bem o que precisaria fazer no jogo contra o Palmeiras. E, após o jogo deste domingo, vencido pelos mexicanos por 1×0, ficou evidente que de fato, ele sabia o que precisaria fazer.

A vitória do Tigres tem o dedo de acertos de Ferretti, mas também a digital de erros de Abel Ferreira. Vejamos abaixo onde cada um dos treinadores acertou e errou.

O ENCAIXE DOS DOIS TIMES

Tuca Ferretti teve um jogo de características muito diferentes contra o Ulsan do que contra o Palmeiras. Na estreia do Tigres no Mundial, o time saiu atrás, e teve de buscar o jogo. Contra o Palmeiras, Tuca Ferretti armou o time para não sair atrás no primeiro tempo de forma alguma. Era a maneira de conseguir atuar com o relógio e o nervosismo do Palmeiras, que vivia o peso de estrear na competição, totalmente a seu favor. Funcionou.

O Tigres na primeira etapa soube truncar o jogo e desacelerar a partida no momento em que o Palmeiras ensaiou começar a ser mais ativo na pressão, e dar a bola ao Palmeiras para sair jogando, coisa que o time de Abel Ferreira já mostrou ter dificuldade quando não o pode fazer com saídas em velocidade e de contra-ataque. Não é um time que, escalado com Rony compondo os lados de campo, consegue jogar para abrir linhas de defesa em trocas de passe. 

Na primeira partida com o River, na Libertadores, o time de Gallardo jogou com suas linhas altas, buscando sufocar o Palmeiras no seu campo de jogo. E serviu de encaixe perfeito para o time de Abel jogar sabendo usar a velocidade de Rony para acelerar o contra-ataque permitido pelos espaços de um time ofensivo. Já na partida da volta, o River jogou de linhas altas, mas não deu o espaço no meio campo para que uma recuperação de bola encontrasse Rony constantemente com espaço para acelerar o jogo.

O Tigres não. Decidiu jogar acelerando com Rodriguez e com Quiñónes, mas estacionado de tal forma que Rony não teria qualquer espaço para acelerar jogadas. E o jogo de Abel depende muito dessa saída, vide os 13 gols que tiveram participação do atacante na Libertadores. 

Os dois homens de lado pela direita, Aquino e Rodriguez, somados com um suporte de Rafael Carioca, cabeça de área flutuante, impediram o Palmeiras de usufruir do jogador que é seu principal escape para quebrar linhas. Não é de hoje que a equipe de Abel tem dificuldade na criação de espaços com a bola nos pés, em triangulações, mesmo tendo um excelente meia armador, Raphael Veiga.

Foram 63 tentativas de ligação direta do Palmeiras na partida. Uma amostra clara da dificuldade com a bola nos pés. O único momento de superioridade do Palmeiras foi em um recorte de 20 minutos na primeira etapa, a partir dos 15 minutos, com o time verde subindo suas linhas de marcação e dificultando a saída de jogo de Rafael Carioca, e por consequência, a chegada da bola em Quiñónes e Gignac. Mas Ferretti percebeu isso, e trouxe Quiñónes e Aquino para receber a bola, e fez Gignac cair mais pelo lado de Marcos Rocha, que tem grandes debilidades de marcação.

Aqui é possível ver o acerto de Tuca Ferretti. Minar a principal arma ofensiva do Palmeiras. Há outro acerto também, no aspecto ofensivo, que trataremos abaixo. Antes, vamos do acerto de Ferretti para o respectivo erro de Abel.

FALTOU ESTUDO?

Abel sabia, ou deveria saber ao menos, que enfrentaria um time com uma proposta reativa. Sabia que o Tigres jogaria para não deixar o Palmeiras abrir o placar cedo, como errou e deixou contra o Ulsan, e assim atrair o time para seu campo de defesa. E mesmo assim, apostou em uma escalação que dependia de espaço para desenvolver jogadas ofensivas. Garantindo Gabriel Menino pelo lado para fazer a recomposição junto de Marcos Rocha e conter Quiñónes, mas ao mesmo tempo deixando um dos principais jogadores de meio do Palmeiras isolado.

Se o jogo pela velocidade do contra-ataque de Rony não iria ser uma arma viável, exceto cenários em que o Palmeiras abrisse o placar cedo e forçasse o Tigres a sair para jogar, como então criar uma situação de desconforto para o jogo de Ferreti?

No banco do Palmeiras estava Willian, que entrou na segunda etapa e participou de duas jogadas de perigo do Palmeiras. 

Willian foi importante em alguns jogos em que o Palmeiras enfrentou times reativos. Em especial o jogo contra o Corinthians. Se mostrou um jogador importante para ajudar a desmontar linhas de defesa, e abrir os caminhos para a entrada de Raphael Veiga ou de algum dos volantes. Willian não joga preso dos lados, muito menos dentro da área. Flutua muito bem entre as linhas do adversário, e sabe como ninguém neste time do Palmeiras, arrastar a marcação para a chegada dos meias.

O Palmeiras poderia ter escolhido um jogo com Willian, povoando a frente da área do time do Tigres, e rodando a bola, contando com a qualidade do seu meio campo, para buscar uma estratégia que não dependesse de velocidade pelos lados.

Mas Abel escolheu a estratégia que Tuca Ferretti estava preparado para jogar. Afinal, ele deve ter assistido a Palmeiras e River, da mesma forma que à PAOK e Benfica, jogo que deu o cartão de visitas de Abel Ferreira.

O SEGUNDO TEMPO: TIGRES NA FRENTE SOUBE FAZER A BOLA CORRER

Na segunda etapa, o Tigres não foi apenas um time reativo. Foi um time que soube manter o Palmeiras em seu campo de defesa, até o momento do abafa do desespero nos minutos finais de jogo. E não cansou, tanto que Ferreti só foi fazer sua primeira alteração aos 41 minutos da segunda etapa.

Isso porque jogou com a velocidade da bola, e não de seu time, que tem deficiências neste aspecto, especialmente no meio campo. Quiñónes era a grande alternativa de velocidade, mas mesmo assim, quem correu no time do Tigres na segunda etapa foi a bola. O time soube explorar os espaços que o Palmeiras, forçado a subir seus blocos para empatar o jogo, deixava entre o trio de meio e Danilo. Com a entrada de Felipe Melo, Abel tentou garantir defensivamente o setor para poder atacar. Mas a saída de Veiga fez o time perder quem poderia oferecer alguma profundidade nas jogadas ofensivas, e Rony sem um bom meia de ligação e sem espaço, tinha pouco a oferecer no jogo.

Nos clichês mais ditos do futebol, podemos dizer que Tuca Ferretti deu um “nó” em Abel Ferreira. Sabia as armas que tinha o treinador português, e sabia como ele as pretendia utilizar. Mostrou que Abel tem muitas dificuldades em ter um time que saiba criar quando lhe é oferecida a bola. 

O Palmeiras errou por esquecer que sua forma de jogar que encaixava era incompatível com o que faria o Tigres. E o time de Ferretti soube explorar o nervosismo de um time jovem, em estreia no campeonato, e de um time que, desde o início do Campeonato Brasileiro, tem apenas uma virada na conta. O Palmeiras quando sai atrás no placar, tem extrema dificuldade, pelo estilo de jogo de Abel, de virar partidas.

Evidente que na conta entra o erro de Luan que custa o jogo. Mas o Palmeiras tem mais elenco, e deveria atuar como um time capaz de vencer qualquer equipe do futebol mexicano. Não venceu, pois enfrentou um time mais inteligente e aplicado taticamente, e não soube por essa via superar seu adversário. Não venceu pois tem um certo grau de dependência de um jogo que funciona contra times que gostam da bola, mas não contra os que a deixam com o Palmeiras.

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